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AS TRÊS DIMENSÕES

DE UMA

VIDA COMPLETA

 

“o seu comprimento, a sua largura e a sua altura eram iguais”. (Apocalipse 21:16)

 

João, o Visionário, desterrado na solitária e ignorada ilha de Patmos, encontrava-se privado de toda a liberdade, exceto a de pensar. Por isso meditou sobre muitas coisas. Meditou sobre o antigo sistema político e sobre as trágicas imperfeições e horríveis injustiças que ele continha. Meditou sobre a Jerusalém antiga e sobre a sua superficial devoção e ritualismo convencional. Mas, no meio das angustiosas visões das coisas antigas, teve a visão magnífica de algo de novo e de grandioso. Viu uma Jerusalém nova e santa descer do Céu, vinda de Deus. O que havia de mais nobre nessa cidade celeste era a sua luminosa plenitude, que absorvia inteiramente a longa noite de estagnada imperfeição. Não era uma plenitude parcial, nem só dum lado, mas completa em todas as suas três dimensões. Ao descrever a cidade, João diz: “o seu comprimento, a sua largura e a sua altura eram iguais”. Nunca poderia haver desequilíbrio na cidade nova de Deus, com as virtudes sublimes dum lado e os vícios degradantes do outro; tinha de ser completa em todos os seus aspectos.

 

O Livro do Apocalipse é para muita gente um livro estranho e difícil de entender. É freqüentemente posto de lado como misterioso enigma. Mas, para além do estilo peculiar de João e do seu predominante simbolismo apocalíptico, encontramos ali verdades prementes e profundas. O nosso texto inclui uma dessas verdades. Quando João descreve a cidade nova de Deus, descreve realmente a humanidade ideal. Diz, em substância, que a vida quando perfeita é completa em todos os seus aspectos.

 

As nossas vidas pessoais e coletivas são perturbadoramente imperfeitas e angustiosamente parciais; raras vezes manifestam uma nobreza autêntica. A conjunção “mas” segue geralmente toda a afirmação de grandeza. Diz o Antigo Testamento: Naamã era um grande homem, “mas”... (2ª Reis 5:1). Este “mas” indica quase sempre qualquer coisa de trágico ou de desagradável – “mas era leproso”. Não se poderá dizer o mesmo de tantas coisas da vida do homem?

 

A Grécia foi uma grande nação, que legou às gerações seguintes um tesouro inesgotável de conhecimentos. Ofereceu ao mundo as profundas criações poéticas de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes e as criações filosóficas de Sócrates, Platão e Aristóteles. Devido a esses espíritos privilegiados, todos nós fomos herdeiros de idéias criadoras. A Grécia foi, de fato, uma grande nação, mas... Este “mas” assinala o fato de ter existido na Grécia uma aristocracia reservada a uma classe do povo, em vez duma democracia para todos. Este “mas” demonstra também o triste fato da fundação das cidades-estado gregas ter tido as suas bases na escravatura.

 

A civilização ocidental é uma grande civilização, que enriqueceu o mundo com as magníficas criações do Renascimento, com os alegres e doces acordes de Handel, a majestade suave de Beethoven e as inspiradas melodias de Bach; bem como também com a revolução industrial e a partida inicial para o maravilhoso caminho da abundância material. É de fato uma grande civilização, mas... Este "mas" recorda-nos as injustiças e os males do colonialismo e os duma civilização que consentiu que as suas condições materiais passassem à frente da sua finalidade espiritual.

 

A América é um grande país que, com a sua Proclamação de Independência, manifestou ao mundo a mais eloqüente e inequívoca expressão de dignidade humana para sempre confirmada num documento político-social.

 

Com a sua técnica, a América construiu pontes grandiosas que atravessam os mares e edifícios gigantescos que beijam os céus. Através dos irmãos Wright deu ao mundo o aeroplano e tornou possível ao homem abolir distâncias e reduzir o tempo. Através da ciência médica e dos seus maravilhosos produtos, conseguiu curar doenças terríveis e prolongou muito a vida humana. A América é, de fato, um grande país, mas... Este “mas” exprime duzentos e tantos anos de escravatura e os vinte milhões de gente negra privada dos seus direitos à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Este “mas” é também válido para o materialismo prático, mais interessado nas coisas do que nos valores.

 

Por isso, em seguida a uma afirmação de grandeza, há quase sempre uma vírgula que marca a pontuação da sua parcialidade, em vez dum período que simbolize a sua completa realização. Muitas das nossas maiores civilizações foram só grandes em certos aspectos. Muitos dos nossos grandes homens também só nalguns aspectos foram grandes e, outros, mesquinhos e vis.

 

A vida, porém, deveria ser perfeita em todos os aspectos. Para ser completa, precisa das três dimensões citadas neste texto: comprimento, largura, altura.

 

O comprimento da vida é o caminho interior que cada um de nós segue, a fim de realizarmos os objetivos e as ambições pessoais; é a preocupação íntima pelo bem-estar pessoal e pelas próprias responsabilidades. A largura é a preocupação exterior pelo bem-estar dos outros. A altura é o caminho para Deus. A vida perfeita forma um triângulo coerente: num dos vértices está a própria pessoa; no outro estão as outras pessoas e no vértice superior está a Pessoa Infinita, Deus. Sem o devido desenvolvimento de cada uma das partes do triângulo, nenhuma vida pode ser completa.

 

Voltemo-nos, em primeiro lugar, para o comprimento da vida, ou seja, para o interesse individual no desenvolvimento das próprias forças. Num certo sentido, é a dimensão egoísta da vida, mas existe um interesse pessoal que é racional e salutar. O falecido Rabbi Joshua Liebman, num interessante capítulo do seu livro Peace of Mind, observava que devemos todos amarmo-nos convenientemente a nós próprios antes de, adequadamente, podermos amar os outros. Muita gente mergulha no abismo do fatalismo emocional porque não sabe amar-se a si própria convenientemente.

 

Todos temos obrigação de sentir interesse por nós próprios, assim como a responsabilidade de descobrirmos a nossa missão na vida. Deus dá a toda a gente normal a faculdade de realizar alguma coisa. Há, evidentemente, pessoas mais bem dotadas do que outras, mas Deus não deixou ninguém sem talento algum. Existem dentro de nós forças criadoras em potência e temos o dever de trabalhar assiduamente na descoberta dessas mesmas forças. Depois de saber para o que foi destinado, todo o homem deve empregar os maiores esforços no sentido de realizar esse objetivo e procurar executá-lo melhor do que ninguém. Devemos realizá-lo como se Deus nos tivesse chamado especialmente para isso, num dado mo- mento da História. Ninguém pode prestar grande contribuição à humanidade sem esse grandioso sentido da responsabilidade e uma obstinada determinação. Ninguém poderá jamais aplicar realmente a sua potencialidade, sem esse intenso impulso interior. Longfellow escreveu:

 

As alturas a que chegaram e onde estão os grandes homens

não foram alcança das num vôo repentino;

enquanto, durante a noite, os companheiros estavam dormindo, eles subiam.

“The Ladder of St. Augustine”

 

Poderei dirigir umas palavras especiais à nossa gente nova. A dimensão do comprimento representa para vós um supremo desafio. Muitos estarão em colégios e outros em escolas superiores; é impossível exagerar a importância destes anos de estudo. Tendes de compreender que as portas da oportunidade se abrem para vós como nunca se abriram para os vossos pais. O desafio que vos põem é o de quererem ou não entrar por essas portas. Cedo poderão descobrir aquilo para que foram criados e devem trabalhar sem descanso para atingirem a perfeição nos diversos campos onde exercerem a vossa atividade.

 

Cita-se Ralph Waldo Emerson como tendo dito: “Se um homem conseguir escrever um livro, pregar um sermão ou armar uma ratoeira melhor do que o seu vizinho, pode viver isolado no meio duma floresta que toda a gente abrirá caminho para chegar até ele”. Isto é profundamente verdadeiro. Não será preciso esperarem pela emancipação para que possam ser úteis à vida do país. Apesar do natural dilema que exprimentam devido à escravidão e à segregação, às escolas e à vossa condição de cidadania de segunda classe que receberam como herança, é forçoso que, com determinação, quebrem as algemas impostas pelas circunstâncias.

 

Já temos alguns exemplos edificantes de Negros que se libertaram de noites sombrias de opressão e se tornaram, mercê dos seus méritos, astros brilhantes nas suas realizações. Saído duma cabana de escravos das colônias de Virgínia, Booker T. Washington tornou-se num dos maiores “leaders” da América. Das depressivas colinas vermelhas de Gordon County, na Geórgia e dos braços duma mãe que não sabia ler nem escrever, surgiu Roland Hayes, um dos mais famosos cantores mundiais, cuja voz harmoniosa pôde ser ouvida em palácios de reis e em mansões de rainhas. Marion Anderson, nascida num bairro miserável da Filadélfia, teve a honra de ser considerada o maior contralto do mundo; o próprio Toscanini dizia que uma voz como a dela só aparecia uma vez em cada século e Sibelius exclamava que o teto da sua casa não tinha altura suficiente para conter a sua voz. Em circunstâncias difíceis, George Washington Carver conseguiu conquistar um lugar célebre nos anais da ciência. Ralph J. Bunche, neto dum pregador de escravos, distinguiu-se de maneira especial na diplomacia. Estes exemplos são alguns dos muitos que podem ser apontados para demonstrar a contribuição que, numa coisa ou noutra, podemos dar apesar da falta da liberdade.

 

Também somos incitados a trabalhar sem descanso para a perfeita realização dos nossos trabalhos manuais. Nem todos os homens são chamados para serviços especializados ou profissionais e são ainda menos os que atingem os píncaros do gênio nas artes ou nas ciências. Na maioria destinam-se a ser operários em fábricas, e a trabalharem nos campos ou nas ruas. Nenhum trabalho é insignificante; todo o labor que contribui para elevar a humanidade é digno e importante, e deve ser executado com a máxima perfeição. Se um homem for chamado para varre dor de ruas, deve varrê-las com o mesmo cuidado com que Miguel Ângelo pintava, Beethoven compunha, ou Shakespeare escrevia. Deve varrê-las com tal perfeição que todos, no Céu e na terra, olhem e exclamem: “Eis aqui um grande varredor de ruas, perfeito no seu trabalho”. Era o que Douglas Malock pretendia dizer quando escreveu:

 

Se não puderes ser pinheiro no alto da colina

Sê no vale algo de pequeno - mas sê

a melhor coisa pequena na margem do regato.

Sê um arbusto, se não puderes ser árvore.

Se não puderes ser uma estrada, sê atalho,

Se não puderes ser o sol, sê uma estrela;

- Pelo tamanho não te salvas nem te perdes

- Sê o melhor do que quer que tu sejas.

“Meditação XVII”

 

Empenhai-vos em descobrir qual a vossa vocação e depois, apaixonadamente, realizai o melhor que puderdes. Esse caminhar consciente para uma realização pessoal é o comprimento da vida humana.

 

Há quem não vá além desta primeira dimensão. Podem até ser pessoas brilhantes, que desenvolveram soberbamente os seus dotes íntimos, mas que estão presas pelas cadeias dum egocentrismo paralisante. Vivem confinados nas suas ambições e desejos pessoais. Que haverá de mais trágico do que ver um homem imerso no comprimento da vida e a quem falta a largura?

 

Se a vida tem de ser completa, não pode incluir a dimensão do comprimento sem ter também a da largura, que é a dimensão que leva o indivíduo a interessar-se pelas condições de vida dos outros. Ninguém pode saber o que é viver sem sair dos limites dos seus próprios interesses para se lançar nos vastos interesses de toda a humanidade. O comprimento sem a largura é como um afluente sem saída para o mar. Estagnado, inerte, falta-lhe a vida e a frescura. Para que a vida seja fecunda e significativa, o nosso interesse pessoal tem de andar ligado ao interesse pelos outros.

 

Quando Jesus descreveu simbolicamente o Juízo Final, fez notar com nitidez que as normas que separavam as ovelhas dos cabritos eram em função das ações praticadas em relação ao próximo. Ninguém será interrogado sobre os seus méritos acadêmicos ou sobre os bens materiais que adquiriu, mas sobre aquilo que fez aos outros. Deste de comer a quem tinha fome? Deste água fresca a beber a quem tinha sede? Vestiste os nus? Visitaste os doentes e os que estão presos? Estas serão as perguntas do Senhor da Vida. De certa maneira todos os dias são dias de Juízo e com as nossas obras ou palavras, silêncio ou discursos, estamos constantemente inscrevendo-nos no Livro da Vida.

 

A Luz veio ao mundo e cada um de nós tem que optar: ou seguir pelo caminho luminoso do altruísmo criador ou pelo do egoísmo sombrio e destrutivo. É por isto que será julgado. A pergunta mais urgente e persistente da vida é: “Que fizeste pelos outros?”.

 

Deus estruturou este universo de tal forma que as coisas não podem funcionar bem desde que os homens não diligenciem cultivar a dimensão da largura. O “eu” nunca pode realizar-se inteiramente sem o “tu”. A pessoa nunca pode ser ela própria sem as outras próprias pessoas. Os psicólogos sociais dizem-nos que nunca podemos ser de fato alguém, sem estarmos relacionados com os outros. Toda a vida é relacionada entre si, e todos os homens dependem uns dos outros. E, apesar disto, continuamos a caminhar na estrada escorregadia do mais desordenado egoísmo. A maioria dos problemas trágicos que hoje enfrentamos no mundo refletem a incapacidade do homem em aliar a largura ao comprimento.

 

Nota-se isto claramente na crise racial no nosso país. A tensão que existe nas relações rácicas deve-se ao interesse desordenado de muitos dos nossos irmãos brancos pelo comprimento da vida, ou seja, pelas suas privilegiadas condições econômicas, pelo seu poder político, pela sua situação social e pela sua chamada “maneira de viver”. Se eles, ao menos, juntassem o comprimento à largura, que é a dimensão que diz respeito aos outros, as discordantes controvérsias do nosso país transformar-se-iam numa maravilhosa sinfonia de fraternidade. A mesma necessidade existe ao plano internacional. Nenhuma nação pode viver sozinha. A minha mulher e eu tivemos o privilégio de visitar a 1ndia. Embora ali passássemos momentos muito agradáveis e compensadores, também vivemos alguns bem depressivos. Como poderíamos deixar de estar deprimidos quando víamos com os nossos olhos milhões de pessoas com fome? Como deixaríamos de o estar, vendo, como vimos, milhões de pessoas que dormiam nos passeios? Ou quando nos diziam que 350.000.000 de indianos, dos 435.000.000 que formam o povo da 1ndia, têm um rendimento de menos de 2.100 dólares por ano e que a grande maioria nunca viu um médico ou um dentista? Pode a América manter-se indiferente perante esta situação? A resposta é nitidamente negativa. O nosso destino, como nação, está ligado ao destino da Índia; enquanto ela, ou outra qualquer nação, não estiver segura, também nós o não podemos estar. Temos a obrigação de empregar os nossos vastos recursos no auxílio aos países subdesenvolvidos do mundo. Será possível gastarmos tanto do nosso orçamento nacional a estabelecer bases militares espalhadas pelo mundo, e tão pouco a estabelecer as bases do verdadeiro interesse e da compreensão pelos outros?

 

Em última análise: os homens dependem todos uns dos outros e estão envolvidos num mesmo processo. Somos inevitavelmente o protetor do nosso irmão dentro da estrutura inter-relacionada da realidade. Nenhuma nação ou indivíduo pode viver isolado. Esta verdade foi interpretada em termos gráficos por John Donne: “Nenhum homem é uma ilha, encerrada em si mesma; cada um é uma peça do Continente, uma parte do todo; um pouco de terra batido pelo mar é a própria Europa, como se fosse um Promontório, como se fosse uma mansão do teu amigo ou a tua; a morte de qualquer homem enfraquece-me porque estou inserido na Humanidade. Não mandes nunca perguntar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

 

O reconhecimento da unidade entre os homens e da necessidade duma ativa preocupação fraterna pelo bem-estar dos outros, é a largura da vida humana.

 

A outra dimensão que falta para completar a vida é, nomeadamente, a altura, ou seja, o esforço para atingir algo mais alto do que a humanidade. Temos de nos elevar acima da terra e estabelecer a aliança suprema com esse Ser eterno que é a origem e o fundamento de toda a realidade. Juntando a altura ao comprimento e à largura, teremos a vida completa.

 

Assim como há quem não passe do comprimento, também há os que não vão além da combinação deste com a largura. Desenvolverão com brilho as suas capacidades interiores ou possuirão talvez um grande sentido humanitário, mas, aí, param. Tão agarrados estão às coisas terrenas que chegam à conclusão de que a humanidade é Deus. Tentam viver sem o Céu.

 

Há talvez certas razões que explicam a falta desta terceira dimensão nos homens. Alguns deles têm sinceras dúvidas intelectuais, e quando observam os horrores do mal moral e natural perguntam: “Se existe um Deus bom e todo poderoso, porque permite Ele a existência de tantas dores e sofrimentos imerecidos?”. E na impossibilidade de receberem uma resposta adequada, voltam-se para o agnosticismo. Há outros que também consideram difícil adaptar os seus conhecimentos racionais e científicos aos nem sempre científicos dogmas religiosos e às concepções primitivas acerca de Deus.

 

Desconfio, contudo, que a grande maioria das pessoas tem de ser incluída noutra categoria. Não são ateus em teoria, são ateus na prática. Não negam a existência de Deus nas palavras, mas negam-na constantemente nas suas vidas. Vivem como se Deus não existisse. Talvez que, ao riscarem Deus das suas agendas, não tenham bem consciência disso. Muitos deles não terão dito abertamente: “Adeus, Senhor, vou deixar-Te”, mas estão tão preocupados pelas coisas deste mundo que, inconscientemente, se deixam arrastar pela maré impetuosa do materialismo. O homem moderno que vive naquilo a que o Professor Sorokin chamou “cultura sensorial” só acredita nas coisas que os cinco sentidos apreendem.

 

Mas esta tendência para substituir o Universo centrado em Deus pelo universo centrado no homem, causa uma frustração ainda maior. Dizia Reinhold Niebuhr: “Os acontecimentos trágicos sucedem-se uns aos outros desde 1914, como se a História fosse designada para desmentir as vãs ilusões do homem moderno”. Navegamos no mar da história moderna como um navio sem bússola; não temos governo nem rumo. Duvidamos das nossas dúvidas e surpreendemo-nos a pensar se não haverá realmente alguma força espiritual oculta.

 

Embora os nossos desmentidos teóricos, não podemos explicar em termos materialistas certas experiências espirituais que recebemos. Apesar do nosso preito à ordem natural, sentimos dentro de nós, cada vez mais, algo que nos leva a perguntar se será possível atribuir a ordem maravilhosa do universo ao encontro fortuito de átomos com elétrons. E apesar dum louco respeito pelas coisas materiais, ocorre-nos sempre de novo algo que nos recorda a realidade das coisas invisíveis. Quando, à noite, olhamos para as estrelas que enfeitam o céu como lumes cintilantes da eternidade, julgamos ver tudo; mas em seguida algo nos lembra que não podemos ver a lei da gravitação que as segura. Quando, extasiados, observamos a beleza arquitetônica duma imponente morada de Deus, há alguma coisa que logo nos recorda a insuficiência dos nossos olhos para ver a total realidade dessa catedral. Não podemos ver o espírito do arquiteto que a concebeu, nem nunca poderemos ver o amor e a fé das pessoas cujos sacrifícios tornaram possível aquela construção.

 

Quando olhamos uns para os outros, depressa concluímos que a percepção do corpo físico representa tudo o que somos. Quando neste momento olham para o púlpito e me vêem a pregar, concluem logo que estão a olhar para Martin Luther King. É possível, porém, que também se lembrem que é apenas o meu corpo que vêm e que esse corpo, por si só, não raciocina nem pensa. Nunca poderão ver o “eu” que forma o meu ser, nem eu nunca poderei ver o “tu” que faz de cada um de vós o vosso próprio ser. Essa coisa invisível a que chamamos personalidade, fica fora do nosso campo visual. Platão tinha razão quando dizia que aquilo que vemos é a sombra daquilo que não vemos.

 

Deus continua presente no seu universo. O nosso atual desenvolvimento técnico e científico não pode bani-lo do espaço microscópico ocupado pelo átomo, nem da insondável imensidade do espaço interplanetário. Num universo em que as distâncias de alguns corpos celestes se medem em bilhões de anos-luz, o homem de hoje exclama com o Salmista:

 

“Quando contemplo o firmamento, obra dos vossos dedos

e a luz das estrelas que fizestes

o que é o homem, para dele vos lembrardes?

que é o filho de Adão, para que vos ocupeis dele?”.

Salmo 8:45

 

Peço-vos instantemente que deis a prioridade à vossa busca de Deus. Permiti que o seu Espírito impregne o vosso ser. Necessitais dele para arrostar as dificuldades e as contrariedades da vida. Haverá temporais longos e perigosos, rajadas de vento impetuoso e ondas alterosas até que o vosso barco atinja o seu último porto de abrigo. Se não tiverdes uma fé firme e profunda em Deus, ficareis sem defesa perante as dificuldades, as desilusões e as vicissitudes que inevitavelmente, tereis de afrontar. Sem Deus, todos os nossos esforços se desfazem e o nascer do sol transforma-se na noite mais sombria. Sem Ele, a vida é um drama sem sentido a que faltam as cenas decisivas... Mas, quando unidos a Ele, tornamo-nos aptos a atingir as alturas sublimes da paz interior e a descobrir as estrelas cintilantes de esperança nas noites mais depressivas e escuras da vida. São bem verdadeiras as palavras de Santo Agostinho: "Foi para Ti que nos criastes, e o nosso coração vive inquieto enquanto não repousa em Ti” (Confissões, Livro 1, Capítulo 1).

 

Um sábio pregador já idoso foi a uma escola fazer um sermão durante uma cerimônia de fim de curso. Quando acabou o seu discurso, demorou-se um pouco a conversar com alguns dos membros laureados. Quando falava com um dos mais brilhantes bacharéis, chamado Roberto, quis informar-se dos seus planos para o futuro. Roberto respondeu-lhe:

 

“Tenciono entrar já para a Faculdade de Direito”.

 

“E depois?” Perguntou o pregador.

 

“Bem” - disse o outro - penso casar-me, arranjar família, estabelecer-me e exercer a minha profissão de advogado”.

 

“E depois?” Prosseguiu o pregador.

 

“Depois”, retorquiu Roberto: “devo dizer francamente que pretendo ganhar muito dinheiro para poder retirar-me cedo e viajar pelo mundo a maior parte do tempo; foi sempre o meu sonho”.

 

“E depois disso tudo?” Tornou o pregador com maçadora insistência.

 

“Julgo ter dito todos os meus projetos”, disse Roberto.

 

Olhando-o então com uma expressão de tristeza e de paternal preocupação, o pregador disse-lhe:

 

“Meu rapaz, os teus planos são bem modestos. Só podem durar uns setenta e cinco anos ou, no máximo, cem. Tens de alargá-los bastante para Deus caber dentro deles e prolongá-los de forma a neles caber a eternidade”.

 

Foi um conselho sensato. Desconfio que muitos de nós continuamos a forjar projetos desmedidos na quantidade, mas limitados na qualidade; projetos que se movem no plano horizontal do tempo e esquecem o plano vertical da eternidade. Também eu vos recomendo que os façais tão grandes e tão vastos que as cadeias do tempo e as algemas do espaço não possam retê-los. Oferecei a vossa vida, tudo o que tendes e tudo o que sois, ao Deus do Universo, cujos desígnios não mudam.

 

Onde encontraremos esse Deus? Num tubo de ensaio? Onde poderemos encontrá-lo senão em Jesus Cristo, o Senhor das nossas vidas? Quando O conhecemos, conhecemos Deus; não é só Cristo que é igual a Deus, mas Deus que é também igual a Cristo. Cristo é o verbo feito carne. É a linguagem de eternidade traduzida em palavras do tempo. Se desejarmos saber a quem Deus se assemelha e compreender quais os seus desígnios em relação à humanidade, voltemo-nos para Cristo. Só entregando-nos absolutamente a Cristo e à sua vontade, poderemos participar no maravilhoso ato de fé, que o verdadeiro conhecimento de Deus, nos proporciona.

 

Qual será, pois, a conclusão a tirar? Amai-vos a vós mesmos, desde que isso signifique um interesse pessoal saudável e racional. Fostes intimados a fazê-lo: é o comprimento da vida. Amai o vosso próximo como a vós mesmos. Fostes intimados a fazê-lo: é a largura da vida. Mas nunca esqueçais, contudo, que existe ainda um primeiro e maior mandamento: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente” (Mateus 22:37). É a altura da vida. Só desenvolvendo cuidadosamente estas três dimensões podereis ter a esperança de alcançar uma vida completa.

 

Agradeçamos a Deus ter enviado João que, há muitos séculos, ergueu os olhos para o Céu e viu a nova Jerusalém em toda a sua magnificência. Que Deus permita que nós também possamos ter a mesma visão e caminhar com ardente entusiasmo para essa cidade onde a vida é completa, onde o seu comprimento, a sua largura e a sua altura são iguais. Só assim realizaremos a nossa profunda autenticidade. Só atingindo essa perfeição poderemos ser, verdadeiramente, filhos de Deus.