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O MAL

CAIU MORTO

NA PRAIA

 

“E Israel viu os cadáveres dos egípcios caídos na praia do mar” (Êxodos 14:30).

 

Haverá algo de mais evidente do que a presença do mal no mundo? Os seus tentáculos preênseis e viscosos prolongam-se sobre todas as camadas da existência humana. Podemos discutir a origem do mal, mas ninguém, a menos que possuído dum superficialismo otimista, pode discutir a sua existência. O mal é sólido, medonho e profundamente real. Ao afirmar em termos indiscutíveis a realidade do mal, a Bíblia descreve simbolicamente o trabalho ardiloso duma serpente que, num jardim, inocula a discórdia na sinfonia harmoniosa da vida; denuncia profeticamente a injustiça fria e a feia hipocrisia; e retrata dramaticamente a multidão desvairada que prega numa Cruz, entre dois ladrões, a Pessoa mais preciosa do mundo. A percepção bíblica do mal é cristalinamente transparente. Também Jesus reconheceu a realidade do mal. Embora nunca desse uma explicação teológica sobre a sua origem, Jesus chama joio ao joio e não diz que ele seja uma ilusão ou um erro do espírito humano. São sementes autênticas, que prejudicam o desenvolvimento normal da seara. O joio é sempre venenoso e prejudicial, seja ele semeado pelo Maligno ou pelo abuso que o homem faz da sua liberdade. Quando se refere à semente daninha, Jesus diz, em resumo, o seguinte: “Não vou explicar a sua origem, mas ela é obra de um inimigo”. Ele sabia que a força do mal era tão real como a do bem.

 

Dentro da vasta arena da vida quotidiana, vemos o mal em todas as suas horríveis dimensões. Vemo-lo na cobiça trágica e no egoísmo desordenado; vemo-lo nas mais altas situações, quando os homens pretendem sacrificar a verdade nos altares dos seus interesses pessoais. Vemo-lo nas nações imperialistas, esmagando outros povos ao peso da injustiça social. Vemo-lo disfarçado em calamitosas guerras, que deixam os homens e as nações moral e fisicamente arruinados.

 

A História do homem, em certo sentido, é a história da luta entre o bem e o mal. No próprio centro do Universo existe uma tensão de forças contrárias reconhecida por todas as grandes religiões. O Hinduísmo, por exemplo, chama a essa tensão um conflito entre a ilusão e a realidade; o Zoroastrismo diz que é a luta entre o deus da luz e o deus das trevas; para o Judaísmo tradicional e para o Cristianismo, é um conflito entre Deus e Satanás. Todos reconhecem que, no movimento de bondade que nos impulsiona para o alto, existe uma força contrária que nos empurra para o fundo.

 

O Cristianismo afirma com toda a nitidez que, dessa luta entre o bem e o mal, a vitória será eventualmente ganha pelo bem, e o mal há de ser vencido, no fim, pelas forças inexoráveis e poderosas do bem. A Sexta-feira Santa dá lugar à música triunfal da Páscoa. A erva daninha pode, durante uma estação, prejudicar o crescimento da seara mas, quando chega a altura da colheita, o mau joio será separado do bom trigo. César morava num palácio e Cristo numa Cruz, mas foi Cristo que dividiu a História em “a.C.” e “d.C.”, e o próprio reinado de César é indicado pelo seu nome. A religião bíblica já há muito afirmava o que William Cullen Bryant escreveu: “Quando a verdade é esmagada na terra, renasce outra vez” (The Battle Field). Também Thomas Carlyle dizia: “Não há mentira em ação ou palavra que, depois de maior ou menor circulação, não venha a ser como uma letra sacada sobre a Realidade da Natureza e que, ao ser apresentada a pagamento, obtém como resposta: Não é válida” (A Revolução Francesa, vol. I, livro. III).

 

Encontra-se um exemplo gráfico desta verdade na História antiga do povo hebreu. Quando os filhos de Israel se encontravam duramente escravizados pelo Egito, este simbolizava o mal, por causa da sua opressão humilhante, exploração desumana e tirania esmagadora, enquanto Israel simbolizava o bem, pela sua devoção e dedicação ao Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob. O Egito lutava a fim de manter o jugo opressor, e Israel lutava para se libertar desse mesmo jugo. Embora pragas seguidas ameaçassem os seus domínios, o Faraó, obstinadamente, recusava-se a ouvir os clamores de Moisés. Isto lembra-nos algo acerca do mal, que nunca devemos esquecer; nomeadamente, que o mal é teimoso e decidido a nunca abandonar espontaneamente a sua presa sem uma resistência fanática e persistente. Há, porém, uma vantagem para o Universo: o mal não pode, permanentemente, organizar-se a si mesmo. Foi por esta razão que os Israelitas, depois duma grande e árdua luta, puderam, com a ajuda de Deus, atravessar o Mar Vermelho. Mas os egípcios, como a velha guarda que nunca se rendia, mandaram os seus exércitos atrás deles até ao Mar Vermelho com a desesperada intenção de evitar a sua fuga. Logo que ali chegaram, as águas, que antes se haviam dividido para abrir passagem, juntaram-se de novo, desabando sobre eles, e a turbulência das ondas alterosas depressa os afogou a todos. Quando os Israelitas olharam para trás só puderam ver, aqui e além, os cadáveres caídos na praia. Foi um momento extraordinário para os Israelitas. Era o fim dum terrível período da sua história; era a luz brilhante do dia que destruía a longa noite de cativeiro. O significado desta história não está no fato de os soldados egípcios se terem afogado, pois ninguém deve alegrar-se com a morte ou com a desgraça dum ser humano. Simboliza antes a morte do mal e o fim duma opressão desumana e duma exploração injusta.

 

A morte dos egípcios junto da praia é a recordação viva de que na própria natureza do Universo há qualquer coisa que ajuda o bem na sua perene luta contra o mal. O Novo Testamento declara com justiça: “Nenhuma correção parece agradável quando se recebe; pelo contrário, torna-se dolorosa. No fim, porém, oferece frutos de paz e de justiça aos que são exercitados por ela” (Hebreus 12:11). O Faraó explorava os filhos de Israel, no fim, porém... Pilatos cedeu perante a massa do povo que crucificou Cristo, no fim, porém... Os primeiros cristãos eram lançados às feras ou decapitados, no fim porém... Algo no universo justifica as palavras de Shakespeare:

 

Há uma divindade que nos molda o destino,

ela o esboça conforme nós o queremos.

Hamlet, ato V, cena II.

 

ou as de Lowel1:

 

Ainda que seja o mal a prosperar,

forte, porém, só a verdade.

The Presente Crisis.

 

ou as de Tennyson:

 

Eu creio firmemente que aparecerá o bem,

e para todos, no último dos fins,

todo o inverno se tornará primavera.

In memorian.

 

A verdade contida neste texto é nos revelada na luta contemporânea entre o bem, representado pela liberdade e pela justiça, e o mal, pela opressão e pelo colonialismo. Dos aproximadamente 3.000.000.000 de pessoas que existem neste mundo, há pelo menos 1.900.000.000, uma grande maioria, que vive nos continentes da África e da Ásia. Há menos de duas décadas ainda, a maior parte dessa gente estava colonizada, dominada e explorada política e economicamente, humilhada e segregada pela dominação estrangeira. Protestou-se durante anos contra tão graves injustiças. Em quase todos os territórios africanos ou asiáticos surgiu um Moisés corajoso que advogou apaixonadamente a causa do seu povo. Durante mais de vinte anos, Mahatma Gandhi instou ininterruptamente junto dos vice-reis, governadores gerais, primeiros ministros e reis para que libertassem o seu povo. Os dirigentes ingleses, como outrora os Faraós, mantiveram-se surdos a estes clamores angustiosos. Até o grande Winston Churchill respondeu ao grito de independência de Gandhi com as seguintes palavras: “Não fui nomeado Primeiro Ministro de S. Majestade o Rei, para presidir ao desmembramento do Império Britânico” (Discurso em Mansion House, 10 de Novembro de 1942). O conflito entre estas duas forças, o poder colonial, dum lado, e os povos da África e da Ásia, do outro, tem sido uma das mais críticas e momentosas batalhas do século vinte.

 

Mas, apesar da resistência e da obstinação dos poderes coloniais, a vitória das forças da justiça e da dignidade humana vai-se concretizando pouco a pouco. Há vinte anos havia apenas três países independentes em todo o continente africano e hoje já há trinta e dois. Há uns quinze anos, o Império Britânico dominava politicamente mais de 650.000.000 pessoas na Ásia e na África, mas agora esse número baixou para menos de 60.000.000. Abriu-se o Mar Vermelho. As massas oprimidas da Ásia e da África libertaram-se do jugo do Egito colonialista e encaminham-se agora para a Terra Prometida da estabilidade econômica e social. É-lhes agora possível ver caídos na praia os males do colonialismo e do imperialismo.

 

Na nossa própria luta pela justiça e pela liberdade dentro da América, também podemos observar a morte do mal. Foi em 1619 que o preto foi trazido do solo africano para a América. Durante mais de duzentos anos, a África foi roubada e espoliada, os seus reinos nativos destroçados, e desmoralizados os povos e os chefes. Na América, o negro despersonalizado era apenas a peça duma máquina dentro duma vasta plantação.

 

Havia, porém, quem tivesse a consciência desperta e compreendesse o estranho paradoxo de existir um sistema tão injusto numa nação fundada no princípio de que “todos os homens nascem iguais”. Em 1820, seis anos antes de morrer, Thomas Jefferson escrevia melancolicamente estas palavras:

 

“Este momentoso problema (a escravatura) acordou-me durante a noite, como um toque a rebate, e deixou-me apavorado. Considerei-o logo como o aviso do fim da União (...) Tenho pena de morrer convencido de que se perde o sacrifício inútil da geração de 1776 a fim de conseguir um governo independente e a felicidade do seu país (...) Só me resta a consolação de já cá não estar para chorar sobre a campa” (Carta a John Holmes, 22 de Abril de 1820).

 

Como Jefferson, havia muitos abolicionistas torturados pelo problema da escravatura. Percebiam claramente que o escândalo da escravatura era tão degradante para o negro como para o branco.

 

Chegou por fim o dia em que Abraão Lincoln atacou de frente o problema. São conhecidas as suas hesitações e preocupações, mas a conclusão a que chegou traduz-se nestas palavras: “Ao concedermos a liberdade ao escravo, garantimos a liberdade ao que é livre, tão honroso é aquilo que concedemos como o que preservamos” (Mensagem Anual ao Congresso, 1 de Dezembro de 1820). Baseado neste fundamento moral, Lincoln redigiu a Proclamação da Independência, decreto que acabou com a escravatura. O significado desta Proclamação é descrito com brilho pelo grande americano Frederick Douglass:

 

“Reconhece e declara a natureza real da contestação (...) e coloca o Norte do lado da justiça e da civilização (...) O primeiro de Janeiro de 1863 passa a ser incontestavelmente o dia mais célebre dos anais americanos. O dia quatro de Julho já era grande, mas quando comparamos os dois nas suas implicações e conteúdo, consideramos o primeiro de Janeiro incomparavelmente maior. O primeiro referia-se ao nascimento político da Nação; o outro diz respeito à vida e ao caráter nacional e determina se essa vida e esse caráter serão glorificados pelo brilho das suas altas e nobres virtudes ou infamemente obscurecidos para sempre” (Douglass’ Monthly, 1 de Janeiro de 1863, 9. 1).

 

Mas a Proclamação da Independência não trouxe a liberdade completa ao negro, pois embora este passasse a gozar de algumas vantagens políticas e sociais durante a Restauração, depressa compreendeu que os Faraós do Sul tinha decidido mantê-lo na escravidão. A Proclamação da Independência tinha evidentemente conseguido aproximá-lo do Mar Vermelho, mas não lhe assegurara a passagem através das águas divididas. Apoiada numa decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, de 1896, a segregação racial tornou-se numa nova forma de escravatura, disfarçada por certas complexas sutilezas. Na luta da última metade deste século entre as forças da justiça, tentando acabar com o prejudicial sistema de segregação, e as forças da injustiça, procurando mantê-lo, os faraós utilizaram manobras legais, represálias econômicas e até mesmo a violência física, para manter o preto no Egito da Segregação. Apesar do clamor paciente de tantos Moisés, negavam-se a libertar a gente de raça negra.

 

Assistimos hoje a uma transformação radical. Um acórdão revolucionário, lavrado pelos novos juízes do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, abriu o Mar Vermelho, e as forças da justiça atravessam para o outro lado. O Tribunal revogou a antiga sentença de Plessy de 1896, e declarou a desigualdade de direitos inerentemente injusta, e que a segregação duma criança por motivos rácicos representava negar a essa mesma criança uma eqüitativa proteção legal. Esta decisão veio trazer uma luz de enorme esperança a milhões de pessoas deserdadas. Quando olhamos para atrás, podemos ver agora as forças da segregação caírem mortas a pouco e pouco na praia. O problema está ainda longe de estar resolvido e existem grandes barreiras de oposição mas já, pelo menos, abandonamos o Egito e, com firmeza e persistência, havemos de alcançar a Terra da Promissão. O mal que a injustiça e a exploração representam não dura sempre. Há na História uma passagem do Mar Vermelho que proporcionará a vitória às forças do bem e onde as mesmas águas, juntando-se de novo, assinalarão o fim e a destruição das forças do mal.

 

Isto tudo nos diz que o mal contém o germe da sua própria destruição, e que, apesar de tudo, o direito esmagado tem sempre mais força do que o mal triunfante. Quando alguém perguntou ao historiador Charles A. Beard quais as maiores lições que ele colhera na História, respondeu:

 

“Primeiro: que os deuses destroem aqueles a quem antes incutiram a loucura do poder. Segundo: que os moinhos de Deus moem devagar mas a farinha moída é excessivamente fina. Terceiro: que a abelha fecunda a flor que violou. Quarto: que quanto mais escura é a noite, melhor se vêem as estrelas”.

 

Estas palavras não são as dum pregador, mas as dum frio historiador a quem os longos e difíceis estudos revelaram a condição autodestruidora do mal. Pode este, às vezes, durar muito tempo mas, em dada altura, atinge os seus limites. Existe no universo alguma coisa parecida com aquilo a que os gregos chamavam a deusa Nemésis.

 

É preciso neste ponto acautelar-nos para não cairmos num otimismo fácil ou concluirmos que o fim dum determinado mal significa a morte de todos os males na praia do mar. Todo o progresso é precário e a solução dum problema coloca-nos logo perante um outro qualquer. O Reino de Deus, como realidade universal, ainda não chegou. Porque o pecado existe a todos os níveis da existência humana, segue-se à morte duma tirania, a emergência de uma outra tirania.

 

Mas assim como temos de evitar um otimismo fácil, também devemos evitar um pessimismo deprimente.

 

Mesmo precário, podemos promover, dentro de certos limites, um verdadeiro progresso social. Embora a peregrinação moral do homem possa não atingir o seu destino na terra, os seus esforços constantes podem aproximá-lo da cidade da justiça. E embora o Reino de Deus possa ainda não existir na história como realidade universal, pode existir, porém, em aspectos isolados, como num ato de julgar, numa devoção pessoal ou em determinada vida do grupo. “O Reino de Deus está dentro de vós” (Lucas 17:21).

 

Temos de nos lembrar ainda, e acima de tudo, que Deus opera no seu universo. Não é de fora que olha para nós com uma espécie de fria indiferença; aqui presente, em todas as contingências da vida, une os seus esforços aos nossos. Com uma amizade constante de Pai, trabalha através da História a fim de salvar os filhos. Quando nós lutamos tentando vencer as forças do mal, o Deus do Universo luta conosco. Não é só através da eterna luta do homem contra o mal que este morre na praia; morre porque o poder de Deus o destrói. Mas porque será Deus tão lento em vencer as forças do mal? Porque permitiu a Hitler matar seis milhões de judeus? Porque consentiu a escravatura na América durante duzentos e quarenta e quatro anos? Porque deixa multidões sanguinárias linchar à vontade homens e mulheres negros e atabafar, por capricho, rapazes e raparigas dessa mesma raça? Porque não destrói e esmaga as intenções criminosas de tanta gente má?

 

Não pretendo entender todos os caminhos de Deus e qual a altura escolhida por Ele para destruir o mal. Talvez o principal desígnio de Deus ficasse prejudicado se Ele empregasse, em relação ao mal, os processos drásticos que nós ambicionamos. Somos seres humanos responsáveis e não cegos autômatos; somos pessoas e não fantoches. Quando nos concedeu a liberdade, Deus renunciou a uma parte da sua soberania e impôs a Si próprio certas limitações. Se os seus filhos são livres, é escolhendo livremente que devem realizar a sua vontade. Deus não pode simultaneamente impor a sua vontade aos filhos e manter o seu desígnio em relação ao homem. Se Deus, por pura onipotência, destruísse o seu propósito, manifestaria com isso mais fraqueza do que força. O poder é a capacidade de realizar o propósito; a ação que o destrói é fraqueza.

 

A lentidão manifestada por Deus em relação à destruição imediata do mal, não significa que esteja sem fazer nada. Nós, frágeis e mortais seres humanos, nunca estamos sós quando procuramos o triunfo da justiça. Como escreveu Matthew Arnold, existe uma “força constante que trabalha pela causa da justiça e que não é a nossa” (Literature and Dogma, 1883). É preciso que também não esqueçamos que Deus se lembra sempre dos filhos que são vítimas das forças do mal. Incute a força necessária para suportar as provações impostas pelo Egito e dá a coragem e as forças para continuar a jornada. E quando a luz da esperança oscila e a chama da fé esmorece, é Deus que restaura as nossas almas e nos renova o vigor para agüentarmos. Não é só na hora luminosa da plenitude que Ele está conosco, mas também durante a meia-noite do desespero.

 

Quando fomos à Índia, minha mulher e eu passamos um agradável fim de semana no Estado de Karala, o ponto mais ao sul daquele vasto país. Durante a nossa estadia, visitamos a linda praia de Cabo Comorin, a que chamam “Fim da Terra” porque é ali que acaba o território da Índia. Defronte de nós, havia apenas a vastidão imensa do mar. Esse belo local é o ponto onde se juntam três enormes massas de água, o Oceano Índico, o Mar da Arábia e a Baía de Bengala. Sentados num rochedo gigantesco debruçado sobre o mar, sentíamo-nos emocionados pela imensidade do oceano e pelas suas terríveis dimensões. Enquanto as ondas, num movimento rítmico, rebentavam contra o rochedo onde estávamos, ouvíamos deliciados a música cadenciada do oceano. A oeste víamos o sol que, como uma magnífica bola cósmica de fogo, parecia afundar-se no próprio mar. No instante em que quase desaparecia do nosso campo visual, minha mulher tocou-me no braço e disse-me: “Olha que bonito, Martin!” Voltei-me e vi a Lua, outra bola de cintilante beleza. Enquanto o Sol parecia afundar-se no mar, a Lua parecia sair dele. Quando, por fim, o Sol desapareceu, a noite invadiu a terra, mas a Leste a claridade da Lua que nascia, brilhava com supremo esplendor.

 

Disse então para minha mulher: “Há nisto uma analogia com o que acontece na vida”. Todos nós já experimentamos momentos em que a luz do dia se apaga e nos deixa numa sombria e desoladora meia-noite, quando as nossas mais altas esperanças se desfazem em cinzas de desespero ou quando somos vítimas duma injustiça trágica ou de terrível humilhação. Durante esses momentos, a tristeza e o desânimo invadem as nossas almas e sentimo-nos como se a luz nunca mais voltasse. Mas sempre e de novo olhamos para o oriente e descobrimos uma nova luz, cujo brilho ilumina a noite mais escura, e então “o aguilhão do desespero” transforma-se em “facho luminoso”.

 

Um mundo em que Deus tivesse apenas uma única luz, seria um mundo insuportável, mas consolemo-nos porque as luzes do Senhor são duas: uma, que nos conduz durante a claridade do dia quando as esperanças se realizam e as circunstâncias são favoráveis; e outra, que nos guia na escuridão da meia-noite, quando temos dificuldades e as sombras da tristeza e do desânimo crescem nas nossas almas. O testemunho do salmista diz-nos que nunca necessitamos de caminhar na escuridão:

 

“Para onde irei longe do vosso espírito

para onde fugir longe da vossa face?

Se subir até aos Céus, vós ali estais

se descer ao scheol lá vos encontrarei também

se tomar as asas da aurora

e me fixar nos confins do mar

É ainda vossa mão que lá me levará

e vossa destra que me sustentará

Se eu dissesse: pelo menos as trevas me ocultarão

e a noite, como se fora luz, me há de envolver

as próprias trevas não são trevas para vós

a noite vos é transparente como o dia

e a escuridão clara como a luz.

Salmo 138:7-12

 

 É esta fé que nos ajuda na luta contra o jugo de todos os males do Egito. É ela a luz que ilumina os nossos passos, a chama que alumia o caminho sinuoso das nossas vidas. Sem esta fé, os nossos maiores sonhos ficarão, silenciosamente, reduzidos a pó.