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AMOR

NA

AÇÃO

 

Então Jesus disse: “Perdoai-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem!” Lucas 23:34.

 

Poucas palavras no Novo Testamento traduzem com maior clareza e solenidade a magnanimidade do espírito de Jesus, do que esta expressão proferida do alto da Cruz: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”. É a suprema forma do amor.

 

Não poderemos compreender todo o grandioso significado desta oração de Jesus, a menos que notemos primeiro que o texto começa pela palavra então. O versículo imediato que a precede reza assim: E quando chegaram ao lugar chamado Calvário, lá o crucificaram a Ele e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Então disse Jesus: “Pai, perdoai-lhes...” Então, no momento em que mergulhava no abismo dessa ardente agonia. Então, quando o homem caía no mais baixo. Então - quando as perversas mãos da criatura ousaram crucificar o Filho Unigênito do Criador. Então Jesus disse: “Pai, perdoai-lhes”. Este então poderia ter tido outro significado. Poderia ter sido: “Pai, fazei-lhes o mesmo”, ou, “Pai, lançai os raios poderosos da vossa justa ira e destruí-os”, ou ainda: “Pai, deixai cair sobre eles as torrentes da vossa justiça e da retaliação”. Mas nenhuma destas coisas Ele disse. Embora submetido a uma agonia inexprimível, sofrendo dores cruciantes, abandonado, repudiado, as suas palavras foram “Pai, perdoai-lhes”.

 

Observemos as duas lições básicas a tirar deste texto.

 

Primeiro, a maravilhosa expressão da capacidade de Jesus para ligar as palavras aos atos. Uma das maiores tragédias da vida é a de os homens raramente saberem estabelecer a ligação entre a prática e a intenção, entre a atuação e a palavra. Uma perseverante esquizofrenia deixa muitos de nós tragicamente divididos dentro de nós próprios. Por um lado, professamos cheios de orgulho determinados princípios, nobres e sublimes; mas por outro, infelizmente, praticamos exatamente o contrário desses mesmos princípios. Quantas vezes as nossas vidas se caracterizam por uma alta tensão de convicções e uma anemia de atos! Referimo-nos com eloqüência à nossa dedicação profunda pelos preceitos do Cristianismo, e contudo as nossas vidas andam saturadas de práticas pagãs. Proclamamos a nossa devoção à democracia e, na prática, fazemos tristemente tudo o que se opõe à doutrina democrática. Falamos apaixonadamente da paz, e, ao mesmo tempo, preparamos assiduamente a guerra. Defendemos ardentemente os caminhos da justiça e depois seguimos inexoravelmente os da injustiça. Esta dicotomia, este fosso profundo entre o que deve ser e o que é, representa o tema trágico da humana peregrinação terrestre.

 

Mas na vida de Jesus não se encontra esse fosso. Não existe na história exemplo mais sublime da consistência entre a palavra e o ato. Durante o seu ministério pelas aldeias luminosas da Galiléia, Jesus falou apaixonadamente sobre o perdão. A estranha doutrina despertou a consciência inquiridora de Pedro: “Quantas vezes poderá pecar meu irmão contra mim, devendo eu perdoar-lhe? Até sete vezes?” (Mateus 18:21). Pedro pretendia ser legal e estatístico, mas Jesus respondeu-lhe, afirmando que não havia limites para o perdão: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. O que significa, por outras palavras, que o perdão não é uma questão de quantidade mas de qualidade. Um homem não pode perdoar quatrocentas e noventa vezes sem que o perdão se torne parte integrante do seu ser. O perdão não é um ato casual; é uma atitude permanente.

 

Jesus também exortou os seus discípulos a amar os inimigos e a rezar por aqueles que maldosamente os perseguiam. Este ensinamento era como que uma música distante para os ouvidos daqueles que o escutavam; não estavam preparados para as novas qualidades desse tão extraordinário amor. Haviam-lhes ensinado a amar os amigos e a odiar os inimigos; as suas vidas eram orientadas para a desafronta, exigida pelo acatamento tradicional da retaliação. Jesus, porém, ensinava-lhes agora que somente através dum generoso amor pelos inimigos poderiam tornar-se filhos do Pai Celeste e que o amor e o perdão eram absolutamente indispensáveis à sua maturidade espiritual.

 

Surge o momento da prova. Cristo, o inocente Filho de Deus, agoniza dolorosamente no alto duma cruz. Onde há agora lugar para o amor e para o perdão? Como irá Jesus reagir? Que irá Ele dizer? A resposta a estas perguntas irrompe impetuosa, em todo o seu magnífico esplendor. Jesus ergue a cabeça coroada de espinhos e, com palavras de proporções cósmicas, exclama: “Pai, perdoai-lhes que eles não sabem o que fazem”. Era o instante máximo de Jesus; era a resposta sobrenatural ao seu encontro temporal com o destino.

 

Sentimos a grandeza desta oração no seu contraste com a natureza, a qual, presa na sua estrutura impessoal, não perdoa. Perante as súplicas angustiosas de homens arrastados por devastadores ciclones ou pelo grito de agonia lançado pelo operário que se despenha do alto dum andaime, a natureza mantém-se numa serena e fria indiferença, manifestando assim o respeito pelas suas leis fixas e imutáveis; quando estas são violadas, nada mais lhe resta do que continuar inexoravelmente no caminho da uniformidade. A natureza não perdoa nem sabe perdoar.

 

Comparemos agora a prece de Jesus com a lentidão do perdão concedido pelo homem. Vivemos segundo a teoria de que a vida é meramente uma questão de esforço ou de “salvar a face”. Curvamo-nos defronte do altar da vingança. Quando Sansão, cego em Gaza, reza fervorosamente pelos seus inimigos, pede apenas para eles o extermínio total. A beleza potencial da vida humana é permanentemente desfeada pela ária da retaliação a que os homens constantemente recorrem.

 

Comparemos agora essa oração com a sociedade que menos pronta é ainda a perdoar. A sociedade não pode dispensar normas de vida, costumes e hábitos. Não pode dispensar as restrições legais nem as repressões judiciais. Os que infringem as normas ou desobedecem às leis são geralmente condenados, e sem esperança de novas oportunidades. Perguntai à rapariga inocente que, depois dum momento de desvairada paixão, fica com um filho ilegítimo nos braços; ela vos dirá que a sociedade é lenta em perdoar. Perguntai ao funcionário público que, num instante de fraqueza, traiu a confiança oficial, e ele vos dirá que a sociedade é lenta em perdoar. Ide a qualquer prisão e perguntai aos que lá estão dentro porque escreveram nas páginas das suas vidas linhas que os desonraram, e, por detrás das grades, eles vos dirão que a sociedade é lenta em perdoar. Dirigi-vos ao local dos condenados à morte e falai com essas desgraçadas vítimas da criminalidade; o grito de desespero que elas lançam no seu passeio trágico para a cadeira elétrica significará também que a sociedade não perdoa. A pena capital é a prova mais concludente de que a sociedade não perdoa.

 

Esta é a história constante da vida mortal. São grandes marés de vingança que provocam a turbulência histórica da humanidade. O homem nunca se libertou da injunção da lex talionis: “vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé” (Êxodo 21:23-24). Apesar da lei de retaliação não remediar os problemas sociais, os homens continuam seguindo essa orientação desastrosa. A História está coberta de destroços de nações ou de indivíduos que seguiram esse rumo tão perigoso.

 

Do cimo da cruz, Jesus afirmou com eloqüência uma lei mais alta. Sabia que a antiga filosofia do “olho-por-olho” deixaria todos cegos. Não foi com o mal que procurou vencer o mal; venceu-o pelo bem. Crucificado pelo ódio, respondeu com agressivo amor.

 

Que magnífica lição! As gerações aparecem e desaparecem; os homens continuam a adorar o deus da vingança e a prostrar-se no altar da retaliação; mas esta nobre lição do Calvário lembra-nos agora e sempre que só a bondade afasta o mal e só o amor vence o ódio.

 

Há também uma outra lição a tirar da oração de Cristo na Cruz. É a expressão da lucidez de Jesus sobre a cegueira intelectual e espiritual do homem. “Eles não sabem o que fazem”, disse Jesus. Afligia-os a cegueira; faltava-lhes a luz do entendimento. Temos de reconhecer que, para além do pecado, foi também a cegueira que pregou Jesus na cruz. Os homens que gritavam “crucificai-o” eram mais cegos do que maus. O povo que assistia com risos de escárnio à sua passagem para o Calvário não era formado por gente má, mas gente cega. Não sabiam o que faziam. Que tragédia!

 

Pululam na História os exemplos deste drama vergonhoso. Há muitos séculos atrás obrigaram um sábio chamado Sócrates a beber cicuta; os homens que exigiram a sua morte não eram homens maus, nem de instintos perversos, eram até leais e respeitáveis cidadãos da Grécia. Pensavam sinceramente que Sócrates era um ateu, porque as idéias que ele professava acerca de Deus tinham uma profundidade filosófica muito superior aos conceitos tradicionais. O que matou Sócrates foi a cegueira e não a maldade. Saul não era mal intencionado quando perseguia os cristãos; era até um praticante sincero da religião hebraica. Estava convencido de que tinha razão e não perseguia os cristãos por falta de integridade mas por falta de esclarecimento. Os cristãos que se envolveram em perseguições infames e em inquisições vergonhosas eram extraviados, mas não eram maus. Os homens da Igreja que julgavam ter um mandato de Deus para suster os progressos da ciência, fosse a revolução de Copérnico ou a teoria da seleção natural de Darwin, não eram maldosos, mas simplesmente mal informados. Por isso as palavras proferidas por Cristo no alto da cruz se ajustam com acuidade a algumas das mais inexprimíveis tragédias da História: “Eles não sabem o que fazem”.

 

Diversas atitudes degradantes dos nossos dias demonstram esta trágica cegueira. Há ainda quem julgue que a guerra é a solução para os nossos problemas atuais. Não é gente má, são pelo contrário cidadãos bons e respeitáveis, com idéias revestidas de patriotismo. Falam de guerra fria e do equilíbrio do terror. Estão sinceramente convencidos de que a continuação da corrida ao armamento terá conseqüências mais vantajosas do que prejudiciais, e para isso reclamam bombas mais potentes, maiores engenhos nucleares e mísseis balísticos mais rápidos.

 

A sabedoria adquirida pela experiência deveria dizer-nos que a guerra hoje é já uma coisa obsoleta. Pode ter havido tempos em que a guerra serviu como um mal menor, evitando a expansão e o aumento das forças do mal, mas o poder destrutivo das armas modernas eliminou totalmente a possibilidade dessa vantagem. Se afirmamos que a vida vale a pena ser vivida e que o homem tem direito à sobrevivência, tentemos procurar uma outra alternativa. Numa época em que veículos se lançam no espaço e projéteis teleguiados sulcam estradas de silêncio através da estratosfera, não há nações vitoriosas no mundo. Aquilo a que chamamos as guerras locais só poderão legar sofrimentos humanos; confusão política e desilusão espiritual. Uma guerra mundial, e que Deus nos livre dela, apenas deixaria algumas cinzas mal apagadas como testemunho duma raça humana cuja loucura inexoravelmente arrastara para uma morte prematura. Há, contudo, muita gente que ainda considera o desarmamento como um mal e as negociações internacionais como uma abominável perda de tempo. O mundo anda ameaçado pela sombria perspectiva do aniquilamento atômico porque há ainda muitos homens que não sabem o que fazem. Reparai também como a verdade deste texto se aplica às relações raciais. A escravatura na América não se perpetuou apenas por causa da maldade humana, mas da cegueira humana.

 

As causas remotas responsáveis pelo regime da escravatura foram, em grande parte, os fatores econômicos. Os homens convenceram-se a si próprios de que um sistema economicamente tão vantajoso seria decerto moralmente justificável. Formularam teorias complicadas sobre a supremacia racial, e os seus raciocínios cobriram os defeitos óbvios com belas roupagens de justiça. Esta tentativa dramática de dar uma sanção moral a um sistema econômico vantajoso, foi a origem da doutrina da supremacia do branco. Citou-se a Bíblia e a religião para manter o statu quo, e a ciência foi intimada a provar a inferioridade da raça negra. Até a lógica filosófica foi manobrada para dar uma sanção intelectual ao sistema da escravatura. Alguém formulou o argumento da inferioridade do negro, baseando-se num silogismo de Aristóteles:

 

Todos os homens são criados à imagem de Deus

Deus, como todos sabem, não é um negro

Logo, o Negro não é um homem.

 

Assim baralharam os homens os conhecimentos profundos da religião, da ciência e da filosofia, segundo as suas conveniências, a fim de sancionarem a doutrina da supremacia dos brancos. A idéia depressa se divulgou e todos os textos a incluíram, sendo até mencionada quase em todos os púlpitos. Tornou-se parte integrante da cultura. Esta filosofia foi adaptada então por muita gente como expressão autêntica da verdade e não como a racionalização dum erro. Chegaram mesmo a acreditar sinceramente que o negro era por natureza inferior, e que a escravatura tinha sido ordenada por Deus. O sistema da escravatura recebeu o seu maior apoio legal em 1857, com as deliberações do Supremo Tribunal da Justiça dos Estados Unidos, na decisão de Dred Scott. O Tribunal decidiu que o negro não tinha nenhum direito que o branco fosse obrigado a respeitar. Os juízes que deram esta sentença não eram homens maus; eram vítimas da cegueira espiritual e intelectual. Não sabiam o que faziam. Todo o sistema de escravatura foi mantido durante tanto tempo por pessoas que eram sinceras mas espiritualmente ignorantes.

 

Encontra-se também esta cegueira trágica na parente próxima da escravatura, que se chama segregação. Entre os mais enérgicos defensores da segregação, há alguns que são sinceros nas suas convicções e sérios nos seus motivos. Embora haja outros que são segregacionistas por meras razões de origem política ou de vantagem econômica nem todos os que se opõem á integração pertencem à retaguarda dos fanáticos profissionais. Muitos julgam que as tentativas para conservar a segregação são para bem deles, dos filhos e da nação. Muitos deles, são bons praticantes, agarrados às idéias religiosas dos pais. Procurando justificar as suas convicções, chegam a alegar que o primeiro segregacionista foi Deus. “Os pássaros encarnados não voam com os azuis”, dizem eles, e insistem nas suas idéias acerca da segregação, afirmando que esta pode ser racionalmente e moralmente justificada. Quando forçados a exporem as razões que os levam a acreditar na inferioridade do negro, vão buscar doutrinas pseudocientíficas e argumentam que o cérebro do preto é mais pequeno que o do branco. Não sabem, ou não querem saber, que a idéia de raças superiores ou inferiores já há muito tempo foi refutada pela evidência da ciência antropológica. Grandes antropologistas como Ruth Benedict, Margaret Mead ou Melville J. Herskovits concordam em que não existem raças superiores ou inferiores. Os segregacionistas também pretendem ignorar que a ciência demonstrou haver quatro tipos de sangue e que os quatro se encontram em todos os grupos rácicosos. Acreditam cegamente na eterna validade deste mal chamado segregação e na inoportuna realidade dum mito chamado supremacia dos brancos. Que drama! Foram crucificados milhões de negros por causa desta conscienciosa cegueira. Do alto da cruz, olhemos com Jesus para os nossos opressores e digamos com amor: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem”.

 

De tudo isto que tentei dizer, julgo poder-se depreender que, nem a sinceridade, em si mesma, nem a consciêncialização, são o suficiente. A História tem provado que estas nobres virtudes podem degenerar em trágicos vícios. Nada há no mundo mais perigoso do que uma ignorância convencida ou uma estupidez conscienciosa. Shakespeare escreveu:

 

Porque, por eles, as mais doces coisas tornam-se as mais amargas.

Os lírios que apodrecem cheiram muito pior que a erva.

Soneto XCIV

 

Como principal guardiã moral da comunidade, a Igreja deve implorar aos homens que sejam bons e bem-intencionados e que as virtudes da bondade e de caráter sejam exaltadas. E, sempre, em qualquer altura, a Igreja deve lembrar aos homens que, sem a inteligência, a bondade e a consciencialização não serão mais do que forças brutas que os levam a vergonhosas crucificações. Nunca se deve cansar de lhes dizer que têm a responsabilidade moral de serem inteligentes.

 

Poderemos nós deixar de verificar que nem sempre a Igreja demonstrou grande interesse por essa necessidade moral do esclarecimento? Por vezes até falou como se a ignorância fosse uma virtude e a inteligência um crime. Pelo seu obscurantismo, mentalidade estreita e obstinação, a Igreja tem inconscientemente encorajado os seus membros a menosprezar a inteligência. Mas para que possamos reclamar o título de cristãos teremos de procurar fugir à cegueira intelectual e moral. Através do Evangelho, somos constantemente incitados a pedir o dom da luz. O mandamento não só diz que amemos a Deus com todo o nosso coração e a nossa alma, como também com toda a nossa mente. Quando o Apóstolo Paulo reparou na cegueira de muitos dos seus adversários, disse: “Declaro em seu favor que têm zelo por Deus, mas não conforme o conhecimento” (Romanos 10:12). Também a Bíblia constantemente nos chama a atenção para os perigos do zelo sem o conhecimento e da sinceridade sem a inteligência. Recebemos o mandato para vencer o pecado e também a ignorância. O homem moderno, se está atualmente à beira do caos, não o deve somente à maldade, mas também à estupidez humana. Se a civilização ocidental continuar, como as vinte e quatro que a precederam, a caminhar para a decadência, até cair irremediavelmente no abismo sem fundo do nada, a causa não será só a sua incontestável condição de pecadora, como também a sua espantosa cegueira. E se a democracia americana se for gradualmente desintegrando, a culpa, tanto será da falta do cumprimento da justiça como da falta de visão. Também se o homem moderno continuar a cortejar abertamente a guerra e casualmente transformar a sua vida temporal num Inferno que Dante dificilmente conceberia para além da sua manifesta crueldade, o motivo será também a sua manifesta estupidez.

 

“Eles não sabem o que fazem”, disse Jesus. O principal mal deles era a cegueira e o nó do problema é este: não temos necessidade de ser cegos. A cegueira intelectual e moral, ao contrário da física que é infligida por forças incontroláveis da natureza, é um dilema proposto a si próprio pelo homem e que resulta do abuso da liberdade e do não aproveitamento de toda a sua capacidade intelectual. Havemos de aprender, um dia, que o coração nunca pode estar inteiramente certo, quando a cabeça está totalmente errada, o que não significa que a cabeça esteja na razão quando o coração o não está. Somente a conciliação de ambas as coisas, inteligência e bondade, poderá levar à completa realização do homem. Também isto não quer significar que seja preciso ser filósofo ou detentor duma cultura acadêmica exaustiva para podermos atingir a perfeição na vida. Conheço muita gente de limitados conhecimentos formais e que possuem uma inteligência e uma visão das coisas, notáveis. O apelo à inteligência é um apelo à abertura de espírito, ao são juízo das coisas e ao amor pela verdade. É o apelo para que os homens se libertem da estagnação duma mentalidade apertada e da paralisia duma credulidade fácil. Ninguém precisa de ser sábio para ter um espírito aberto, nem gênio literário para procurar assiduamente a verdade.

 

A Luz veio ao mundo. Projetada no tempo, há uma Voz que incita os homens a caminhar na luz. Toda a vida terrena do homem se transformará numa dramática elegia cósmica, se ele não responder a este apelo. Disse João: “É esta a causa da condenação: veio a Luz ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz” (João 3:19).

 

Todas as vezes que contemplo a Cruz, penso na grandeza de Deus e na força redentora de Cristo. Recorda-me a beleza do amor sacrificial e a majestade do inabalável culto pela verdade. Apetece-me dizer, como John Bowring:

 

Na cruz de Cristo eu me glorifico,

Elevada sobre os destroços do tempo;

toda a luz da história sagrada

a envolve, sublime, lá no alto.

 

Seria maravilhoso se a contemplação da cruz provocasse apenas em mim uma reação tão sublime, mas não consigo desviar os olhos dela sem que me lembre também de que ela simboliza uma estranha mistura de grandeza e mesquinhez, de bondade e de maldade. Quando olho essa cruz alçada, não é só a grandeza de Deus que me vem ao espírito, mas também a sórdida fraqueza do homem. Não me recordo apenas do fulgor divino, mas do amargo travo humano; não só de Cristo em toda a sua perfeição, como do homem em toda a sua imperfeição.

 

Devemos ver na cruz o símbolo magnífico do amor que conquista o ódio e da luz que vence a escuridão, mas nesta afirmação luminosa, não esqueçamos de que foi por causa da cegueira humana que o Nosso Senhor e Mestre foi pregado numa cruz. Aqueles que O crucificaram não sabiam o que faziam.