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CARTA DE SÃO PAULO

AOS

CRISTÃOS DA AMÉRICA

 

Gostaria de poder ler convosco esta carta imaginária, escrita pela mão de São Paulo. O selo diz-nos que provém do porto de Trôade. Notei, ao abri-la, que vinha escrita em grego e não em inglês; depois dum trabalho assíduo, durante algumas semanas, a traduzi-Ia, julgo ter decifrado o seu verdadeiro sentido. Se o contexto da epístola revelar um certo estilo “Kinguiano” em vez de Paulino, peço-vos que o atribuíeis à minha inteira falta de objetividade e não a menor clareza de Paulo. Eis aqui a carta, tal como a vejo.

 

Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado ao Apostolado pela vontade de Deus, a todos os que estais na América, convosco a graça e a paz da parte de Deus Nosso Senhor e de Jesus Cristo.

 

Há muito que desejo estar convosco, pois tanto tenho ouvido falar de vós e daquilo que tendes feito. Contaram-me das maravilhosas e extraordinárias descobertas que haveis feito no campo científico e nas vossas espantosas realizações tanto na terra como no ar. O vosso gênio científico conseguiu encurtar distâncias e pôr o tempo a ferros. Tornastes possível ir almoçar a Paris, na França, e vir jantar a Nova York, na América. Também me falaram nos vossos imponentes “arranha-céus”, cujas alturas prodigiosas se projetam no espaço; nos avanços da medicina e nos remédios que curam tantas doenças gravíssimas, prolongando assim as vossas vidas e proporcionando-vos uma maior segurança e um maior bem-estar físico. Tudo isto é maravilhoso. Quantas coisas podeis hoje fazer, que seriam impossíveis na minha época; per- correis distâncias num só dia que, aos da minha geração, exigiriam três meses. Como tudo isto é realmente espantoso, e quantos progressos científicos e técnicos haveis realizado!

 

Mas, América, parece-me que o vosso progresso moral e espiritual não terá acompanhado o científico. Julgo ter ele mesmo ficado muito para trás, e que a vossa mentalidade ultrapassou a vossa moralidade e a vossa civilização ofuscou a vossa cultura. Grande parte da vossa vida moderna poderá ser resumida nestas palavras do poeta Thoreau: “Meios perfeitos para fins imperfeitos”. Conseguistes, através do vosso progresso científico, tomar o mundo próximo, mas falhastes no aproveitamento do vosso gênio moral e espiritual para dele fazerdes uma fraternidade. Por isso, América, a bomba atômica que hoje vos atemoriza não é simplesmente o engenho fatal lançado dum avião sobre a cabeça de milhões de pessoas, mas também a bomba que existe no coração dos homens, cuja explosão provoca ódios tremendos e um destruidor egoísmo. Rogo-vos, pois, que coloqueis o vosso progresso moral à frente do científico.

 

Julgo necessário recordar-vos a responsabilidade que vos cabe na representação dos princípios éticos do Cristianismo, numa época em que, geralmente, tão ignorados são. Foi uma tarefa que também a mim me coube. Vejo que muitos cristãos na América dão primordial importância aos sistemas e costumes criados pelo homem. Temem ser considerados diferentes; a sua maior preocupação é serem socialmente aceites. Vivem segundo o princípio de que “todos fazem assim, logo, é assim que se deve fazer”. Para a grande maioria, a moralidade reflete meramente o consenso geral; na vossa desorientação sociológica aceitam-se os costumes como diretrizes do vosso comportamento. Inconscientemente, chegais a acreditar que o caminho reto é determinado pela estatística do Gallup.

 

Cristãos da América, devo hoje dizer-vos o que há muitos anos disse aos Cristãos de Roma: “Não vos conformeis com este século; transformai-vos por meio da renovação da vossa mente” (Romanos 12:2). Sois cidadãos de dois mundos: viveis no tempo e na eternidade. Deveis a vossa lealdade a Deus, e não a costumes e usos correntes, a estados ou a nações, ou a outra qualquer instituição criada pelo homem. Se qualquer instituição ou costume terreno brigar com a vontade de Deus, é vosso dever cristão opor-vos a eles. Nunca deveis consentir que exigências transitórias e evanescentes de instituições humanas possam ter precedência sobre as exigências do Deus Onipotente. Numa época em que homens procuram destruir os altos valores da fé, vós deveis agarrar-vos a esses mesmos valores e, a despeito da pressão contrária exercida pela geração presente, preservá-los para as gerações futuras. Deveis desafiar com energia os erros dos costumes, defender as causas desfavorecidas e lutar contra o statu quo. Vós fostes chamados para ser o sal da terra; sois a luz do mundo; o fermento vital e ativo na massa do país.

 

Sei que adaptastes na América um sistema chamado capitalismo, que vos tem permitido realizar maravilhas; tornaste-vos na mais rica nação do mundo e edificastes o maior organismo de produção de toda a história. Tudo isso é maravilhoso, mas, Americanos, há o perigo de abusardes do vosso capitalismo. Continuo a insistir que a paixão pelo dinheiro é a origem de muitos males e pode tomar o homem num materialista grosseiro. Temo que muitos de vós estejais mais interessados nos lucros materiais do que em acumular tesouros espirituais.

 

O abuso do capitalismo pode também arrastar para uma explosão trágica, e várias vezes no vosso país isto tem acontecido. Dizem-me que mais de 40% da riqueza nacional está nas mãos dum décimo de 1% da população. Quantas vezes, ó América, não destes a classes o luxo que fostes buscar às necessidades da massa! Se quereis ser uma autêntica Nação cristã, tendes de solucionar este problema! Não podeis resolvê-lo recorrendo ao Comunismo, visto que este se baseia num relativismo ético, num materialismo metafísico, num totalitarismo destrutivo e numa repressão de liberdades fundamentais que nenhum cristão poderá aceitar. Podeis, contudo, trabalhar no plano democrático, fomentando uma melhor distribuição de riquezas. Utilizai os vossos vastos recursos econômicos na abolição da miséria no mundo. Não é vontade de Deus que alguns vivam na riqueza supérflua e ostensiva, enquanto outros apenas conhecem a mais negra miséria. O que Deus quer é que todos os seus filhos tenham o necessário para viver e para esse efeito deixou neste universo “o suficiente e mais alguma coisa”.

 

Permiti que agora eu me refira à Igreja. Devo lembrar-vos, como já lembrei a tantos outros, que a Igreja é o Corpo de Cristo, e quando esta se mantém fiel à sua missão nela não há divisão nem desunião. Disseram-me que existem dentro do Protestantismo Americano mais de duzentas e cinqüenta denominações diferentes. Não é positivamente nessa multiplicidade que reside o drama, mas no fato de muitos dos grupos se proclamarem detentores da verdade absoluta. Um tão limitado sectarismo destrói a unidade do Corpo de Cristo. Deus não é batista, metodista, presbiteriano ou episcopaliano; Deus transcende as nossas discriminações. Se vós, América, quereis ser testemunha autêntica de Cristo, fazei por compreender aquilo que vos digo.

 

Sinto-me feliz por saber que há na América um interesse cada vez maior pela unidade da Igreja e pelo Ecumenismo. Dizem-me que organizastes o Conselho Nacional das Igrejas e que grande parte das vossas confissões se filiaram no Conselho Mundial das Igrejas. Tudo isto é esplêndido e exorto-vos a prosseguirdes nesse tão fecundo caminho. Cultivai esses Conselhos e continuai a prestar-lhes todo o vosso auxílio. Também tive animadoras notícias sobre diálogos recentes entre os Católicos Romanos e os Protestantes. Soube que algumas personalidades da Igreja Protestante aceitaram o convite do Papa João para assistirem como observadores ao recente Concílio Ecumênico, em Roma. É um indício significativo e salutar. Espero que represente o início dum movimento para uma união cada vez maior entre todos os cristãos.

 

Outra coisa que me perturba na igreja americana é nela poder existir a divisão entre brancos e pretos. Como é possível existir a segregação no autêntico Corpo de Cristo? Parece até, segundo me dizem, que é maior a integração na sociedade mundana e noutras atividades seculares, do que na Igreja cristã. Corno isto é horrível! Julgo que há entre vós cristãos que tentam descobrir fundamentos bíblicos para justificar a segregação e provar que o negro é, por natureza, inferior ao branco. Ora tal idéia é blasfema e contrária a tudo o que a religião cristã afirma. Repito o que já antes disse a muitos outros cristãos: em Cristo “não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Jesus Cristo” (Gálatas 3:28). Devo, além disso, reafirmar as palavras que pronunciei no Areópago: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há (...) fez nascer de um só homem todo o gênero humano, para que habitasse sobre toda a face da terra” (Atos 17:24-26).

 

Exorto-vos, pois, a libertar-vos de qualquer espécie de segregação; representa um desmentido flagrante à nossa unidade em Cristo. Ela substitui a relação entre duas pessoas por uma relação entre pessoa e coisa, relegando pessoas para a categoria de coisas. Isto fere a alma e degrada a personalidade; inflige nos segregados um sentimento de inferioridade, ao mesmo tempo que imprime em quem segrega uma noção errada sobre a sua própria superioridade; destrói a comunidade e impossibilita a fraternidade. A estrutura filosófica do Cristianismo opõe-se diametralmente à estrutura filosófica da segregação racial.

 

Louvo o vosso Supremo Tribunal pela sua histórica decisão sobre a segregação e também as pessoas de boa-vontade que a consideraram uma grande vitória moral, mas julgo que alguns irmãos se opuseram abertamente a ela e que nas câmaras legislativas ressoaram palavras como “nulificação” e “interposição”. Porque nestes últimos se perdeu o verdadeiro sentido da democracia e do Cristianismo, peço-vos a todos que procureis elucidá-los com paciência; a vossa compreensão e a vossa boa-vontade poderão contribuir para a modificação das suas atitudes. Fazei-lhes ver que, ao oporem-se à integração, não só atraiçoam os preceitos da vossa democracia como os mandamentos eternos de Deus.

 

Espero que as igrejas americanas representem um papel importante na luta contra a segregação; coube-lhes sempre a responsabilidade de alargar horizontes e desafiar o statu quo; a Igreja deve entrar na lide da ação social. Antes de tudo, tentai fazer com que ela extirpe a segregação do seu próprio corpo; em seguida, procurai torná-la cada vez mais ativa na sua ação social no exterior. Deve procurar estabelecer meios de comunicação entre todas as raças. Deve tomar uma posição enérgica contra as injustiças infligidas aos negros, tanto na vida particular como na educação, proteção policial ou tribunais; e deve exercer a sua influência no campo da justiça econômica. Como guardiã da vida moral e espiritual da comunidade, a Igreja não pode indiferentemente ignorar todos estes males flagrantes. Se vós, como cristãos, aceitardes o desafio com devoção e valor, tirareis da sombra, da mentira e do medo os homens transviados do vosso país e conduzi-los-eis à luz brilhante da verdade e do amor.

 

Direi ainda uma palavra àqueles que são vítimas do cruel sistema da segregação. Continuai a trabalhar apaixonada e energicamente pelos vossos direitos, os conferidos por Deus e os constitucionais. Aceitar pacientemente a injustiça é tão cobarde como imoral; em boa consciência, não podeis trocar o vosso direito à liberdade, adquirido por nascimento, por um prato de caldo segregado. Mas se continuardes no vosso justo protesto, tende, porém, o cuidado de empregar sempre métodos cristãos e armas cristãs; que os meios utilizados sejam tão puros como o objetivo que procurais atingir. Nunca sucumbais à tentação de serdes rancorosos. Quando lutais pela justiça, procura manobrar com dignidade e disciplina, servindo-vos do amor como vossa arma principal. Nunca vos deixeis rebaixar tanto por alguém, que sejais obrigados a odiá-lo. Evitai sempre a violência. Se semeares sementes de violência na vossa luta, as gerações futuras colherão o torvelinho da desintegração social.

 

Na vossa luta pela justiça, demonstrai ao vosso opressor que não pretendeis derrotá-lo nem sequer exercer nele as injustiças que sofrestes; que ele possa perceber que a chaga corrosiva da segregação tanto debilita o homem branco como o negro. Mantendo essa posição, emprestais um elevado nível cristão à vossa luta.

 

Muita gente compreende a urgência de eliminar o mal da segregação; muitos negros dedicam as suas vidas à causa da liberdade, e muitos brancos de boa-vontade e alta sensibilidade moral ousam clamar por justiça. Devo reconhecer honestamente que tal atitude requer uma grande capacidade de sacrifício e de sofrimento; não desespereis se fordes perseguidos por amor da justiça. Quando testemunhais pela verdade e pela justiça, ficais sujeitos a que vos desprezem; acusar-vos-ão de idealismo ingênuo, de radicalismo perigoso ou talvez mesmo de comunismo, só porque acreditais na fraternidade do homem. Podeis mesmo, nalguns casos, ser presos; se isso se der, honrareis a cadeia com a vossa presença. Pode significar a perda dum emprego ou da posição no meio social a que pertenceis. Fosse até a morte física o preço exigido para libertardes os vossos filhos da morte psicológica, nada poderia haver de mais cristão. Não vos preocupeis com a perseguição, Cristãos Americanos: tendes de estar dispostos a aceitá-la, quando defendeis um alto princípio. Tenho uma certa autoridade para falar, pois que a minha vida foi um redemoinho constante de perseguições. Depois da minha conversão, fui repudiado pelos discípulos em Jerusalém; fui ali, mais tarde, acusado de heresia; fui preso em Filipos, espancado em Tessalônica, atacado em Éfeso e desfeiteado em Atenas. Saí de todas essas provas cada vez mais persuadido de que “nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas presentes, nem as futuras, nos poderão apartar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, Nosso Senhor” (Romanos 8:38-39).

 

A finalidade da vida não é ser-se feliz, nem procurar o prazer e fugir ao sofrimento, mas, venha o que vier, cumprir sempre a vontade de Deus. Só poderei louvar todos aqueles que inflexivelmente suportaram ameaças e intimidações, transtornos e manifestações de desagrado, prisão ou violência física, por terem proclamado a Paternidade de Deus e a fraternidade do homem. Para estes nobres servos de Deus, existem as palavras consoladoras de Jesus: “Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem; quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal de vós por causa de Mim. Alegrai-vos e exultai porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós” (Mateus 5:11-12).

 

Tenho de acabar esta epístola. Silas espera para a levar e parto agora para a Macedônia onde uma questão urgente requer ajuda. Mas antes de vos deixar, digo-vos, como disse à igreja de Corinto, que o amor é a força mais persistente do mundo. Homens, através dos séculos, têm procurado encontrar o bem mais alto. Foi a maior aspiração da filosofia ética; foi uma das principais preocupações da filosofia grega. Os Epicuristas e os Estóicos procuraram responder-lhe; e Pia tão e Aristóteles tentaram fazer o mesmo. Qual será o summum bonum da vida? Creio, América, ter encontrado a resposta. Descobri que o bem mais alto é o amor. Este preceito está inserido no cosmos. É a maior força unificadora da vida. Deus é Amor. Aquele que ama descobre o sentido da suprema verdade; aquele que odeia torna-se imediatamente candidato à “não-existência”.

 

Cristãos Americanos, podeis dominar as dificuldades da língua inglesa e possuir a eloqüência dos maiores oradores, mas tivésseis vós o dom de todas as línguas e ainda o dos anjos, se não tiverdes amor, sereis como cobre que vibra ou tímbalo que soa.

 

Podeis ter o dom da predição científica ou o profundo conhecimento do comportamento das moléculas; podeis penetrar no interior da natureza e lá adquirir novos e enormes conhecimentos; podeis ascender aos mais altos cargos acadêmicos; possuir toda a ciência, vangloriar-vos dos vossos grandes estabelecimentos de ensino e da vastidão ilimitada dos vossos cursos; quando, porém, vos falte a caridade, nada disto vos aproveitará.

 

Podeis ainda, Americanos, oferecer todos os vossos bens para matar a fome aos pobres, distribuir as maiores esmolas atingir a mais alta filantropia; se, contudo, não tiverdes caridade, ela nada significa. Podeis até entregar o vosso corpo às chamas, sofrer o martírio e o vosso sangue vertido tornar-se em valoroso símbolo de coragem para as gerações futuras ou serdes admirados por milhões de pessoas como um dos supremos heróis da História; mesmo assim, se não tiverdes caridade, o vosso sangue terá corrido em vão. Será bom que percebais que um homem pode centrar-se na sua própria negação e justificar-se no seu próprio sacrifício; que a sua generosidade pode alimentar o seu “eu”, e a sua piedade, o seu orgulho. A benevolência sem amor pode tornar-se egoísmo, e o próprio martírio, vaidade espiritual.

 

A maior de todas as virtudes é a caridade. É nela que descobrimos o verdadeiro sentido da fé cristã e o da cruz. O Calvário é o telescópio pelo qual o nosso olhar alcança a eternidade e vê o amor de Deus expandir-se no tempo. Na sua generosidade imensa, Deus permitiu que o seu Filho Unigênito morresse, para que nós pudéssemos viver. Unindo-vos, pelo amor, a Cristo e aos vossos irmãos, ficareis aptos a matricular-vos na universidade da vida eterna. Inseridos num mundo subordinado à força, à tirania coerciva e à violência sanguinária, sois incitados a seguir o caminho do amor. Descobrireis então que o puro amor é a mais poderosa força do mundo. Digo-vos adeus. Saudai calorosamente a todos os santos ao serviço de Cristo. Confortai os outros; conservai um mesmo espírito; vivei em paz.

 

É pouco provável que vá ver-vos à América, mas encontrar-vos-ei na eternidade de Deus. Até Ele, que é Quem nos preserva da queda, nos eleva dos abismos sombrios do desespero às colinas luminosas da esperança, e da meia-noite da desesperança à alegria da madrugada. A Deus seja dada honra e glória por todos os séculos. Amém.