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ANTÍDOTOS PARA

O MEDO

 

“No amor não há temor; antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve o castigo, e quem teme não é perfeito no amor” (1ª João 4:18).

 

Nestes dias de mudanças catastróficas e de calamitosas incertezas, haverá alguém que não tenha experimentado a depressão e a perturbação do medo destrutivo que persegue os nossos passos com a tenacidade dum cão?

 

Homens e mulheres esbarram por todos os lados com temores que, muitas das vezes, se apresentam sob os mais estranhos e variados disfarces. Obcecados pela possibilidade duma doença, vemos logo num simples sintoma a evidência dum mal. Preocupados com o fato dos dias e anos passarem tão depressa, procuramos drogas que prometem a eterna juventude. Se somos fisicamente fortes, tão preocupados ficamos com a perspectiva dum colapso que criamos um complexo de inferioridade e caminhamos na vida com uma sensação de incerteza, falta de confiança em nós próprios e a impressão de queda iminente. O medo ao que a vida pode trazer impele também muita gente a vaguear pelos caminhos destruidores do excesso de toda a bebida ou da promiscuidade sexual. Há muitas pessoas que, quase sem darem por isso, deixam transformar-se alvoradas de amor e de paz em profundas depressões.

 

Quando não são dominados, estes medos dão origem a uma imensidade de fobias, como, entre outras, a da água, a das grandes alturas, a dos quartos fechados e a do isolamento, que, levadas ao exagero, acabam na fobia da fobia ou no medo do próprio medo.

 

Na concorrência excessiva da atual sociedade, os medos mais correntes são os econômicos os quais, segundo diz Karen Horney, são responsáveis pela maioria dos problemas psicológicos da nossa época. Os chefes das indústrias vivem atormentados pela possível falência dos seus negócios ou pelos caprichos da Bolsa, e os empregados vivem aflitos na perspectiva dum desemprego ou com as conseqüências do aumento da mecanização.

 

Podemos, atualmente, considerar também a multiplicação dos temores religiosos ou ontológicos, onde estão incluídos o medo da morte e do aniquilamento racial. O advento da era atômica, que poderia promover uma época de abundância e de prosperidade, empresta proporções trágicas ao medo mórbido da morte. A terrível ameaça das guerras nucleares pôs nos lábios trêmulos de milhões de pessoas as palavras de Hamlet: “ser ou não ser” (Hamlet, Ato III, cena I). Observemos os esforços frenéticos para construir os abrigos subterrâneos, como se estes pudessem proteger-nos contra um ataque da bomba H! Observemos ainda o angustioso apelo ao governo para que aumente o nosso poder nuclear. Mas esse esforço para manter o “equilíbrio do terror” provoca apenas um terror ainda maior e mantém os países numa constante aflição, na expectativa de que um passo em falso na diplomacia possa causar um horroroso holocausto. Emerson, compreendendo a ação deprimente e destruidora do medo nas energias e nas possibilidades do homem, escreveu: “Quem não vence em cada dia o medo, não aprende a lição da vida” (Society and Solitude, Courage, 1870).

 

Não pretendo, contudo, dizer que se deva tentar eliminar completamente o medo da vida humana; além de ser humanamente impossível, seria até praticamente indesejável. O medo é o elementar sistema de alarme do organismo humano que nos avisa dos próximos perigos e sem o qual o homem não poderia sobreviver, tanto agora como no passado. O medo é, além disso, uma grande força criadora. Todas as grandes invenções ou progressos intelectuais traduzem o desejo de fugir a qualquer terrível circunstância ou situação. Foi o medo da escuridão que levou à descoberta do segredo da eletricidade; foi o medo da dor que provocou os progressos maravilhosos da medicina; o da ignorância, que instituiu os grandes estabelecimentos de educação; e foi o da guerra uma das forças que mais contribuiu para a criação das Nações Unidas. Angelo Patri tinha razão quando dizia: “A educação consiste em sentir medo na altura própria”. Se o homem perdesse a capacidade de ter medo, ficaria privado da capacidade do desenvolvimento, da descoberta e da criação. Por isso, em certo sentido, o medo é normal, necessário e fecundo.

 

Não devemos, contudo, esquecer que os medos anormais são emocionalmente desastrosos e psicologicamente destrutivos. Para demonstrar a diferença entre medos normais e anormais, Sigmund Freud dava o exemplo do homem que, no interior da selva africana, sente o medo natural das cobras e o de outro que, numa casa da cidade, sente o medo neurótico de que elas se encontrem debaixo do tapete da sala. Os psicólogos dizem que uma criança nasce apenas com dois tipos de medo, o de cair e o dos ruídos fortes; os outros todos são adquiridos depois, no ambiente onde vivem. E a maioria destes últimos são as cobras debaixo dos tapetes. É a estes que geralmente aludimos quando falamos na necessidade de nos libertarmos do medo; mas é apenas um dos lados da questão. O medo normal protege-nos, enquanto o anormal paralisa. O medo normal incita-nos a desenvolver o nosso bem-estar coletivo ou individual, enquanto o anormal envenena e deforma constantemente a nossa vida interior. O nosso problema, pois, não é tanto o de nos libertarmos do medo, como antes o de o dominar e de o vencer. Como poderemos vencê-lo?

 

Devemos primeiro encará-lo com firmeza e depois perguntar sinceramente a nós próprios a razão por que temos medo. Este confronto dar-nos-á uma certa coragem, pois nunca nos libertaremos dos medos tentando fugir-lhes ou reprimindo-os. Quanto mais tentarmos ignorá-los ou reprimi-los, mais os nossos conflitos interiores se multiplicarão.

 

Olhando-os de frente e honestamente, descobrimos que muitos deles são os resíduos de determinado receio ou dificuldade da infância. O caso, por exemplo, da pessoa que obcecada pelo medo da morte ou pela do castigo que depois a espera descobre ter inconscientemente projetado na realidade uma experiência de criança, como a de ter sido castigada pelos pais, fechada num quarto ou aparentemente abandonada... Ou ainda o do homem possuído dum assustador sentimento de inferioridade ou repúdio social e descobre que a razão desse repúdio provinha do procedimento da mãe egoísta ou do pai absorvido pelo trabalho que, quando ele era criança, lhe provocou essa sensação de frustração, de inaptidão ou de recalcamento em relação à vida.

 

Quando consciencializados, estes receios tornam-se mais imaginários do que reais. Percebemos então que muitos deles são as tais cobras debaixo do tapete.

 

Não esqueçamos também que, mais vulgarmente do que se julga, os medos envolvem abuso de imaginação. Quando os manifestamos abertamente, podemos às vezes troçar deles e isso é salutar. Dizia um psiquiatra: “O ridículo, é o principal remédio para o medo e para a ansiedade”.

 

Podemos ainda dominar o medo por meio duma das principais virtudes humanas, a da coragem. Platão considerava-a como o elemento da alma que estabelece a clivagem entre a razão e o desejo. Aristóteles considerava a coragem como a afirmação da natureza essencial do homem. Tomás de Aquino dizia que ela era a força de espírito capaz de vencer tudo o que obstasse ao conseguimento dum bem mais alto.

 

Mas a coragem é também a força de espírito capaz de vencer o medo. Ao contrário da ansiedade, o medo visa sempre um objeto definido que deve, portanto, ser encarado, analisado, atacado e, se for preciso, suportado. Quantas vezes o objeto do nosso medo não é apenas o próprio medo! Henry David Thoreau escreveu no seu Diário:

 

“Nada podemos temer tanto como o medo” (Discursos).

 

E, séculos antes, Epicteto escrevia:

 

“Não é a morte nem a dificuldade que são de temer, mas antes o temor da dificuldade ou da morte”.

 

A coragem absorve o medo provocado por um determinado objeto, vencendo assim esse mesmo medo. Paul Tillich escreveu:

 

“A coragem é uma afirmação pessoal apesar de... dessa qualquer coisa que tende a impedir o ‘eu’ de se afirmar”.

 

É a afirmação pessoal apesar da morte e do não ser, e, todo aquele que é corajoso, transporta o medo da morte para a afirmação do seu "eu", e atua nesse sentido. Esta corajosa afirmação pessoal, que é indubitavelmente um remédio para o medo, não significa egoísmo, pois que a afirmação pessoal tanto inclui um amor natural por si próprio como um proporcional amor natural pelos outros. Erich Fromm demonstrou em termos conscientes que o justo amor por si próprio e o justo amor pelos outros são interdependentes.

 

A coragem, a determinação em não sermos dominados por um objeto, por temível que ele seja, torna-nos aptos a enfrentar qualquer espécie de medo. Muitos desses medos não são, porém, as simples cobras debaixo do tapete. A inquietação é uma realidade nesta estranha vida tão confusa; os perigos espreitam dentro do círculo de qualquer ação nossa; ocorrem acidentes; a pouca saúde é sempre uma possibilidade ameaçadora; e a morte é o fato duro, sombrio e inevitável de toda a experiência humana. Neste enigma da vida, o mal e o sofrimento estão sempre junto de nós, e prestaríamos um mau serviço, tanto a nós como aos outros, se tentássemos provar que nada há a temer neste mundo. Estas forças que ameaçam negar a vida têm de ser vencidas pela coragem que é a força da vida a afirmar-se, embora as ambigüidades da própria vida. Isto requer o exercício duma vontade criadora que nos permita extrair pedras de esperança duma pedreira de desespero.

 

A coragem e a cobardia são antitéticas. A coragem é a resolução interior de continuar, apesar dos obstáculos e das situações difíceis; a cobardia é a rendição submissa a qualquer circunstância. A coragem alimenta uma fecunda afirmação pessoal; a cobardia produz uma destrutiva abnegação pessoal. A coragem encara o medo e logo o domina; a cobardia reprime o medo e logo é dominada por ele. As pessoas corajosas nunca perdem o interesse pela vida, mesmo quando a sua situação na vida deixa de ter interesse; os que são cobardes perdem a vontade de viver, quando abrangidos pelas circunstâncias da vida. Teremos de incansavelmente construir diques de coragem para suster a torrente do medo.

 

O medo é também dominado pelo amor. O Novo Testamento afirma: “No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor”. O tipo de amor que conduziu Cristo a uma Cruz e preservou Paulo da amargura no meio das mais terríveis vicissitudes não é brando, anêmico ou sentimental. É um amor que enfrenta o mal com firmeza e manifesta aquilo que na linguagem popular se chama uma enorme capacidade “de encaixar”. Um tal amor vence o mundo, até mesmo do alto duma cruz tosca, destacada no horizonte.

 

Não terá o amor qualquer relação com o nosso medo atual das guerras, instabilidade econômica ou injustiça social? O ódio está enraizado no medo e o único remédio para o medo-ódio é o amor. A nossa deteriorante situação internacional está ferida pelos dardos letais do medo. A Rússia teme a América e a América teme a Rússia; e o mesmo se dá entre a China e a Índia ou entre os Israelitas e os Árabes. Estes temores incluem ainda a agressão duma nação a outra nação, a supremacia científica e técnica, o poder econômico e a perda do nosso próprio prestígio ou força. E não será o medo uma das principais causas da guerra? Costumamos dizer que a guerra é uma conseqüência do ódio, mas uma análise mais cuidada revela a seqüência seguinte: primeiro o medo, depois o ódio, depois a guerra e, no final, um ódio ainda maior. Se o nosso mundo se envolvesse no pesadelo duma guerra nuclear, o motivo não seria tanto o ódio recíproco entre as nações como o medo que sentem umas das outras.

 

Qual o método que a ingenuidade requintada do homem moderno arranjou para se defender do medo da guerra? Armarmo-nos todos o mais que podemos. O Ocidente e o Oriente empenham-se numa febril corrida ao armamento. As despesas com a defesa atingem proporções descomunais, e hoje as armas de destruição têm prioridade sobre qualquer outro empreendimento humano. As nações acreditam que uma maior força militar afasta o medo, mas, infelizmente, ainda o torna maior. As palavras judiciosas da antiguidade não podem ser esquecidas nestes nossos turbulentos e alarmantes dias: “o perfeito amor lança fora o temor”. Não são as armas que podem afastar o medo, mas o amor, a compreensão e a boa-vontade organizada. Só o desarmamento baseado na boa-fé poderá tornar a confiança mútua numa viva realidade.

 

O nosso problema de injustiça racial precisa de igual solução. A segregação racial está apoiada em temores irracionais, como os da perda de certos privilégios econômicos, os da instabilidade social, os dos casamentos mistos e os de adaptação a novas situações. Muita gente branca tenta, durante noites de insônia e dias de pavor, combater por diversos processos esse medo corrosivo. Uns tentam fugir ao problema racial, ignorando-o ou não pensando nas suas conseqüências. Outros aconselham a resistência maciça, apoiados em manobras legais, como a da interposição e a da anulação. Outros ainda julgam abafar o medo, envolvendo-se em atos mesquinhos e violentos contra os seus irmãos negros. Como são fúteis todos esses remédios! Em lugar de eliminarem o medo, instilam terrores patológicos ainda mais profundos que deixam nas suas vítimas psicoses estranhas e casos complicados de paranóia. Não é a repressão, nem a resistência maciça, nem a violência agressiva, que afastarão o medo da segregação; só o amor e a boa-vontade o poderão conseguir.

 

Se os nossos irmãos brancos quiserem dominar o medo, não só dependerão da sua entrega ao amor de Cristo, como também do amor de Cristo que o negro lhe tributar. Só pela nossa aderência ao amor e à não-violência, se poderá mitigar o medo da comunidade branca. Uma minoria branca isenta de culpa teme que o negro, adquirindo maior força, se vingue sem dó nem piedade das brutalidades e das injustiças acumuladas durante todos estes anos. É como um pai que nota, repentinamente, que um filho, que ele toda a vida maltratou já está maior que ele. Irá o filho empregar a sua atual força física para devolver todas as sovas do passado?

 

O negro, que foi a criança desamparada do passado, cresceu agora politicamente, culturalmente e economicamente, e muitos homens brancos temem a retaliação. O negro tem de lhes demonstrar que nada têm a recear, porque o negro perdoa e deseja esquecer o passado. O negro precisa de convencer o homem branco que pretende a justiça para ambos; tanto para ele como para o homem branco. Um movimento de massa que exerça o amor e a não-violência e demonstre, ao mesmo tempo, uma força disciplinada, poderá convencer a comunidade branca de que um aumento de força nesse movimento seria empregado fecundamente e sem intuitos de vingança.

 

Qual é, pois, o remédio para o medo mórbido da integração? Nós conhecemo-lo. Deus nos ajude a realizá-lo! “O perfeito amor lança fora o temor”.

 

Estas verdades relacionam-se também com as nossas ansiedades pessoais. Sentimos receio da superioridade dos outros, do insucesso, da ironia ou da reprovação daqueles cujas opiniões mais respeitamos. A inveja, o ciúme, a falta de confiança pessoal, a sensação obcecante de inferioridade, tudo se encontra enraizado no medo. Não invejamos as pessoas para depois as temermos. É por primeiro as temer que sentimos depois inveja. Ha. verá cura para estes medos aborrecidos que pervertem as nossas vidas? Há, sim: é a profunda e constante fidelidade no caminho do amor. “O perfeito amor lança fora o temor”.

 

Nunca o medo pode ser destruído pelo ódio; só o amor o poderá conseguir. O ódio paralisa a vida; o amor liberta-a. O ódio gera a confusão na vida; o amor harmoniza-a. O ódio obscurece a vida; o amor ilumina-a.

 

O medo é também dominado pela fé. Uma das vulgares origens do medo é a noção duma deficiência de recursos e a conseqüente incapacidade de adaptação à vida. Há imensa gente que tenta enfrentar as suas preocupações sem os recursos espirituais adequados. Durante umas férias no México, minha mulher e eu pretendemos ir à pesca no mar alto. Por razões econômicas, alugamos um barco já velho e mal equipado. Não prestamos grande atenção ao fato até à altura em que, já a dez milhas da costa, o céu se toldou de nuvens e o vento começou a soprar com força. Então ficamos transidos de medo porque conhecíamos as deficiências do barco. Há muita gente nas mesmas condições; os ventos fortes e os barcos frágeis explicam os seus temores.

 

Muitos dos nossos medos anormais podem ser tratados pela psiquiatria, uma especialidade relativamente nova criada por Sigmund Freud, que investiga os caminhos do subconsciente humano e procura descobrir, como e porque são desviadas as energias fundamentais para canais neuróticos. A psiquiatria ajuda a olharmos candidamente para dentro de nós próprios e a procurarmos as causas das nossas inibições e dos nossos medos. Mas muitos dos medos que invadem a nossa vida pertencem a um terreno onde a psiquiatria se revela ineficaz, a menos que o psiquiatra seja um homem de fé religiosa. A nossa dificuldade está exatamente em procurar atacar o medo sem fé; navegamos nos mares tempestuosos da vida sem barcos espirituais adequados. Um dos maiores médicos psiquiatras da América disse: “o único remédio que conhecemos para o medo é a fé”.

 

Os medos e as fobias anormais que se manifestam na ansiedade neurótica podem ser tratados pela psiquiatria, mas o medo da morte, do não-ser, do nada, que se manifesta na ansiedade existencial, só pode ser curado por meio duma autêntica fé religiosa.

 

Uma fé positiva não nos dá a ilusão de sermos isentos da dor e do sofrimento, nem a idéia de que a vida é um drama inalteravelmente tranqüilo e imperturbavelmente fácil. Dá-nos, sim, o equilíbrio necessário para enfrentarmos as dificuldades, os desgostos e os medos que inevitavelmente aparecem e, ao mesmo tempo, a certeza dum universo merecedor da nossa confiança e do interesse de Deus.

 

A ausência da fé, dá-nos, pelo contrário, a sensação de sermos como órfãos perdidos na terrível imensidade do espaço, inseridos num universo vazio de sentido e de inteligência. Uma tal perspectiva esgota a coragem e a energia do homem. Tolstoi, na sua Confissão, escreveu sobre a sensação que tinha tido de isolamento e de vazio antes da sua conversão: “Durante um período da minha vida, vi tudo desmoronar-se à minha volta, os próprios fundamentos das minhas idéias pareciam abalados e senti-me como um farrapo. Não tinha onde me apoiar e na minha vida não existia Deus. No quarto, antes de adormecer, verificava sempre se haveria alguma corda, não fosse eu tentado a enforcar-me nas trevas do teto. Deixei também de ir à caça com receio de sucumbir à tentação de acabar com a vida e com a minha desgraça”.

 

Num dado momento da vida, faltou a Tolstoi, como falta a tantos outros, a firme certeza de que existe uma Inteligência benigna que guia este universo e que envolve toda a humanidade no seu infinito amor.

 

A religião dá-nos a certeza de que não estamos sós neste imenso e inconstante universo. Além e acima das areias movediças do tempo, das dúvidas que ensombreiam os nossos dias e das vicissitudes que obscurecem as nossas noites, existe um Deus de Sabedoria e de Amor. Este universo não é a manifestação trágica dum caos sem sentido, mas a expressão maravilhosa duma ordem cósmica. “Foi pela sabedoria que o Senhor criou a terra foi com inteligência que Ele ordenou os céus” (Provérbios 3:19). O homem não é uma réstia de fumo que se evola dum braseiro imenso, mas um filho de Deus, criado “pouco inferior aos anjos” (Salmo 8:6). Acima da grandeza do tempo, ergue-se um Deus único e eterno que nos guia com a sua sabedoria, nos protege com a sua força e nos guarda com o seu amor. Este amor sem limites sustém-nos e envolve-nos, como o mar poderoso sustém e envolve cada gota duma onda. Em toda a sua plenitude, avança para nós e procura preencher com os seus recursos infinitos as enseadas e as baías das nossas vidas. Este é o eterno diapasão da nossa fé, a eterna resposta ao enigma da existência. Todo aquele que encontrar este apoio cósmico, pode caminhar pelas estradas da vida, sem o cansaço do pessimismo ou o fardo dos receios mórbidos.

 

É esta a resposta ao medo neurótico da morte que aflige tantas das nossas vidas. Encaremos o medo provocado pela bomba atômica com a convicção de que nunca poderemos viajar longe do alcance divino. A morte é inevitável; representa uma democracia para toda a gente e não uma aristocracia reservada só a alguns. Morrem reis e mendigos; jovens e velhos; sábios e ignorantes. Não devemos temê-la; o mesmo Deus que arrancou o nosso planeta à nebulosa inicial e tem guiado a peregrinação humana durante todos estes séculos poderá certamente conduzir-nos por entre as sombras da morte até à luminosidade da vida eterna. A vontade de Deus é demasiado perfeita e os seus desígnios grandes de mais para poderem caber no receptáculo limitado do tempo e nas dimensões estreitas da terra. A morte não é o mal supremo; este consiste no afastamento do amor de Deus. Não queiramos acompanhar a louca corrida para alcançarmos abrigo terrestre; o nosso abrigo eterno está em Deus.

 

Jesus sabia que nada podia afastar o homem do amor de Deus. Ouvi as suas palavras cheias de majestade: “Não os temais pois, porque nada há de escondido que não venha à luz, nada de secreto que não se venha a saber... Não temais aqueles que matam o corpo mas não podem matar a alma; temei antes Aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena. Não se vendem dois passarinhos por uns centavos? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade do Pai. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais pois! Bem mais que os pássaros valeis vós” (Mateus 10:26,28,31). Os homens, para Jesus, não são simples objetos ou detritos lançados no rio da vida, mas sim os filhos de Deus. Não seria decerto razoável que Deus, cuja prodigiosa atividade se manifesta no interesse pela queda dum pardal ou pelo número de cabelos da cabeça dum homem, pudesse excluir do seu incomensurável amor a vida do próprio homem. Esta certeza do interesse de Deus pelo indivíduo tem uma enorme importância no nosso embate com o medo, pois é ela que nos dá o sentido do valor, da participação e da nossa inserção no universo.

 

Uma das mais ativas e dedica das participantes no movimento de protesto em Montgomery, no Alabama, foi uma mulher negra, já idosa, a quem chamávamos afetuosamente a Mãe Pollard. Apesar de pobre e pouco cultivada, era extraordinariamente inteligente e possuía a noção exata do significado daquele movimento. Depois de andar a pé durante semanas, alguém lhe perguntou se sentia-se cansada, ao que ela respondeu com profundidade pouco gramatical: “Tou cansada dos pés mas descansada da alma”.

 

Depois duma semana especialmente intensiva, em que fui preso e ameaçado constantemente pelo telefone, tive de ir falar à nossa assembléia numa determinada segunda-feira à noite. Procurei dar-lhe uma impressão de força e de coragem que, no fundo, estava bem longe de sentir. No fim da reunião, a Mãe Pollard avançou pela Igreja e foi ter comigo: “Vem cá, filho”. Dirigi-me logo a ela e abracei-a afetuosamente. “Há hoje qualquer coisa em ti que não está bem; não falaste com a firmeza do costume”. Tentando disfarçar os meus receios, respondi-lhe que estava enganada e me sentia perfeitamente bem. A sua percepção era, porém, muito aguda e disse-me: “Não queiras enganar-me; sei que há qualquer coisa. Seremos nós os culpados, ou serão os brancos que te andam a maçar?”. Antes que eu respondesse, olhou-me direito nos olhos e prosseguiu: “Bem sabes que estamos todos contigo”. E, com o rosto iluminado por uma certeza profunda e tranqüila, acrescentou: “Mas mesmo que não estivéssemos, terás sempre Deus para te guardar”. Ao ouvir aquelas consoladoras palavras, senti que tudo dentro de mim estremecia e pulsava com renovada energia.

 

Depois dessa noite triste de 1956, já a Mãe Pollard foi para o céu e poucos dias tranqüilos tenho tido desde então. O fogo das tribulações tem-me atormentado e torturado; muita vez fui forçado a apelar para toda a minha força e para toda a minha coragem para enfrentar o vento impetuoso da dor e as tempestades da adversidade. Mas através dos anos que passaram nunca pude esquecer a eloqüência simples daquelas palavras da Mãe Pollard, que sempre e em todas as ocasiões trouxeram à minha alma perturbada, a luz, a paz e o rumo. “Terás sempre Deus para te guardar”.

 

Esta fé transforma o turbilhão do desespero em viva e animadora aura de esperança. Precisamos de gravar nos nossos corações as palavras que vulgarmente se liam nas paredes dos lares devotos da passada geração:

 

O medo bateu à porta.

A fé respondeu; e quando abriu,

não encontrou ninguém.